segunda-feira, 10 de junho de 2019

Fotografía y teratología en América Latina - Una aproximación a la imagen del monstruo en la retratística de estudio del siglo XIX




O USO "PANÓPTICO" DA FOTOGRAFIA

PANÓPTICO DE BENTHAM

Um sistema que prevê a observação total


O controle é exercido pela observação

Jeremy Bentham foi um filósofo inglês que no século XIX projetou uma prisão cujo modelo se chamava panóptico. Essa penitenciária ideal  previa a observação de celas vazadas para dentro e para fora, com uma observadora no centro cercada por persianas, de modo que  o inspetor central não poderia ser visto pelos prisioneiros, mas os prisioneiros poderiam ser vistos de qualquer ângulo.

Foucault percebeu que era possível aplicar esse modelo na sociedade   ao analisar  o exercício do controle e do poder por meio da observação. 

Para Foucalt todas as relações implicam uma relação de poder. Ao falar sobre o panóptico, Foucault divide o poder em duas esferas, o poder real e o poder disciplinar. 

O poder real tem a ver com a figura de autoridade e poder centrada em uma pessoa (algo visível e palpável). Uma forma de poder ostensiva, material (exemplo: a forca, ou a queima de "bruxas" na fogueira). Enfim, grandes espetáculos que serviam de exemplo.

O poder disciplinar é o poder da domesticação e docilização (tornar dócil, fácil de lidar) dos corpos, para que o controle possa se exercer. O medo não era exercido mais do exterior para o interior (com exposições físicas e violentas que servissem de exemplo para os demais). O próprio indivíduo pressionaria a si mesmo. 

Ao ser observado pela perspectiva do poder disciplinar a observação seria sempre subjetiva. A força disso seria nunca intervir, o observador estará sempre ali de maneira subjetiva e o observado saberá que está sendo observado.


A placa abaixo é um exemplo de algo presente em nosso cotidiano que esclarece bem o poder disciplinar do qual Foucault se refere.


Então, concluo que para Foucault o dispositivo panóptico tornou-se uma espécie de metáfora para a nova sociedade disciplinar, e para Cuarterolo uma forma de pensar o uso panóptico da fotografia para controle da sociedade pelas imagens, que diferenciam o normal do anormal, como veremos a seguir. 

Assim:

1.As formas de exercer poder sobre o que é diferente ou potencialmente perigoso deixou de ser a exclusão e a punição e tornou-se controle e vigilância.

2. Não seria mais uma questão de expulsar os diferentes, mas de designá-los um local, para colocá-los em quarentena com a finalidade de observá-los e estudá-los.

3. O objetivo principal deste novo modelo de controle era detectar aqueles indivíduos que não estavam ajustados às regras, para tentar canalizá-los ou levá-los para uma ideia predefinida de normalidade.


E O USO "PANÓPTICO" DA FOTOGRAFIA USADO PELA AUTORA?


O controle subjetivo se dará também pelas fotografias. O ver e ser visto pelas fotografias traz uma nova forma de controle, e para mim,  esse é o cerne da discussão de Cuarterolo.

Cuarterolo irá fazer essa discussão ao observar fotografias médicas de corpos teratológicos e fotografias de povos-indígenas latino americanos feitas por europeus. A Análise da autora gerou as seguintes oposições:
                                                  

                                                 

 ANTROPOLOGIA: progresso x atraso
MEDICINA: saudáveis x doentes 

Se a medicina dividia os indivíduos em saudáveis ​​e doentes, a antropologia estava focada no binômio progresso/atraso.


RELAÇÃO TERATOLOGIA E ANTROPOLOGIA


Teratologia é uma especialidade médica que se dedica ao estudo das anomalias e malformações ligadas a uma perturbação do desenvolvimento embrionário ou fetal. A relação entre fotografia e teratologia não era exclusiva do discurso médico, a antropologia também usou o dispositivo fotográfico para construir sua própria versão da monstruosidade.

Como ocorria a aproximação entre teratologia e antropologia? 

Isidore G. Saint Hilaire sustentava que as condições ambientais poderiam afetar o organismo em seu estado embrionário e produzir vários tipos de monstros. Essas mudanças se transmitiam por herança e provocavam a longo prazo a transformação das espécies. Em outras palavras, um atraso no desenvolvimento do feto produzia um monstro, e quando esta alteração se espalhava, surgia uma nova raça.  Essa ideia permitiu estudar os povos indígenas latino-americanos a partir do conceito de degeneração ou anomalia.


ANÁLISE DAS FOTOGRAFIAS




FOTOGRAFIAS MÉDICAS 
saudável x monstro

A Revista Médico Quirúrgica foi uma das primeiras publicações médicas que existiram na Argentina. Desde sua primeira edição em 1866 e por quase vinte anos, este periódico abordou temas locais e questões que até então só tinham circulado na comunidade científica da Argentina através das publicações que vinham da Europa.






FOTOGRAFIA E TERATOLOGIA



Exemplar Revista Médico Quirúrgica de 1877 

Até 1890 livros e revistas não poderiam incluir imagens que não fossem na forma de gravura ou fotografias coladas. Este sistema era extremamente caro. Alguns livros ou revistas de qualidade costumavam incluir algumas imagens originais desse tipo.


SOBRE OS PADRÕES DA FOTOGRAFIA MÉDICA

- Ausência de regras definidas para a realização desta classe de retratos deu conta da extrema novidade da fotografia médica.

- os retratistas comerciais contratados para a tarefa transferiam para essas imagens muitas das técnicas, convenções estética e códigos de representação típicos de seu ofício.

- Muitas vezes, o único traço que traiu as exigências do prontuário foi o fato de os sujeitos posarem nus, mas mesmo naqueles casos, o fotógrafo freqüentemente também fez uma imagem do sujeito vestido.

-  A verossimilhança da fotografia parecia ser uma condição suficiente para os médicos, que aparentemente não impuseram aos fotógrafos nenhum outro tipo de exigência.

- Embora houvesse alguns closes que fragmentaram o corpo do paciente com foco somente nas áreas mais afetadas, a maioria dessas imagens levou os sujeitos de corpo inteiro, sem omitir o rosto.

- Os doentes  não foram fotografados apenas para exemplificar uma patologia, mas  foram capturados em sua capacidade como indivíduos, usando das técnicas e convenções do retrato burguês





Os "monstros" foram freqüentemente retratados em estúdios decorados com fundos pintados de motivos arquitetônicos ou bucólicos, paisagens que introduziram a figura no contorno de um mundo irreal.
(FOTOS 2.1 e 2.2).

Na edição de 23 de novembro de 1882 e revista incluiu em sua capa uma fotografia anexada de um paciente afetado por atrofia total dos membros superiores e inferiores (Foto 2.1) 
De todas as fotografias desse tipo publicadas na Revista Médico Quirúrgica, esta é a única que que foi assinada, por Emilio Halitzky. No entanto, a estética das outras imagens sugere que também foram tomadas por fotógrafos de estúdio, talvez até pelo próprio Halitzky.

Esta foto foi acompanhada pela legenda "monstro da família da família de ectromelianos ", termo que correspondia ao Tratado de Teratologia de  Geoffroy Saint Hilaire.




Poses e gestos típicos de retratos de estúdio, provavelmente sugeridos pelo próprio fotógrafo.
(FOTOS 3.1 e 3.2).




Também era freqüente o uso de muitos dos elementos simbólicos que no retrato burguês funcionavam como marcas de classe, como mobília de sala ornamentada, colunas e balaustradas, livros, tapetes ou cortinas.
(FOTO 4.1 e 4.2).





Até o final de século XIX era extremamente raro em fotografias de crianças que o fotógrafo abaixasse a câmera até o nível da criança. Pelo contrário, era costume subir o bebê para algum tipo de mobília ou plataforma para fotografá-lo na mesma altura que um adulto. Esta mesma técnica foi encontrada em algumas fotografias latino-americanas de anões.
(FOTO 5.1 e 5.2)




Os sujeitos foram colocados em uma cadeira e fotografados ao lado dos acompanhantes de tamanho normal. Isso serviu de referência e reforçou a pequenez dos pacientes.

 (FOTOS 6.1 e 6.2).



PONTOS DE INTERESSE PARA DISCUSSÃO


-   A fotografia (2.1) foi assinada na borda inferior pelo fotógrafo de origem húngara Emilio Halitzky, ativo em Buenos Aires desde 1866. C. Este profissional não fazia imagens muito longe dos parâmetros de "bom gosto" da época.

- Pelo contrário, ele não só assinou sua foto, mas acrescentou o endereço de seu estúdio da mesma forma que faria com qualquer fotografia tirada na sua galeria.

- A realização dessas imagens foi para retratistas comerciais uma questão de prestígio. 

-  O contraste de seus corpos deformados e mutilados com ostentação e riqueza dos conjuntos das galerias de pose, produziu efeito poderoso de estranhamento. Este efeito aumentou ainda mais nos casos em que as fotografias foram acompanhadas por algum tipo de texto que analisou o caso médico representado.

- A fotografia de "monstros" foi concebida como um instrumento empiricamente confiável para documentar e classificar o anormal ou patológico.

- . Mais do que fornecer informações sobre o assunto retratado e sobre o seu contexto, a fotografia apresentou o monstro em um mundo burguês bem conhecido e manejável, essas imagens ajudaram a codificar "Monstro", e eles o  fizeram compreensível, reduzindo assim o extraordinário para o comum.



FOTOGRAFIA NA ANTROPOLOGIA
progresso x atraso


Evolução das espécies no campo da Sociologia 

No final do século XIX, certos pensadores do positivismo da União Europeia, como Herbert Spencer, tentaram aplicar as ideias de Darwin sobre a evolução das espécies no campo da sociologia.


Esquema Spenceriano:

- estrutura social equilibrada em que cada membro recebeu um lugar e uma função.

- Spencer argumentou que dentro da sociedade existiam classes menos adaptadas ou capazes de ingressar no caminho ininterrupto de progresso.

No século XVI, quando os primeiros europeus tomaram contato com os povos antigos que habitavam a América Latina, associaram os índios com animais, híbridos e monstros. A mesma palavra Patagônia, que designa a região sul do país, vem da crença dos primeiros exploradores que a região foi habitada por gigantes. 






Os aborígenes, eram mostrados como indivíduos altos, vestidos com peles ou túnicas e armados com arcos, flechas e escudos, em atitudes que lembravam dos gigantes. Há fotografias que contradizem essa afirmação. O pesquisador chileno Christian Baéz, analisa em seu artigo "Land of Giants" a imagem de um índio selknam fotografado ao lado de um indivíduo branco que excede amplamente em tamanho.

Embora seja possível que houvesse uma diferença de estatura real entre os dois sujeitos, o fotógrafo aumenta a efeito colocando o indígena em primeiro plano e localizando o indivíduo branco ligeiramente para trás. A vontade por parte do fotógrafo de apoiar o mito do gigantismo através de sua imagem traz à tona uma intencionalidade oculta.
(FOTO 8)
























"O gigante está configurado como um caminho
para ampliar o próprio empreendimento da conquista, a exaltação do outro
atribuindo-lhe qualidades extraordinárias, é a sua própria projeção do
satisfação do ego. O maior, mais corajoso e feroz é o meu
adversário, maior é a minha vitória "(Tradução livre, p. 67).




PEÇAS VIVAS DAS GRANDES EXPOSIÇÕES MUNDIAIS OU DE FEIRAS E ESPETÁCULOS ITINERANTES


- Negócio lucrativo

- Os aborígines foram exibidos para o entretenimento do público ocidental

- Eram apresentados indígenas "monstruosos" por associações constantes que os aproximou do reino animal. 


GRUPO DE ÍNDIOS FUEGUINOS SEQUESTRADOS E ENVIADOS PARA A EUROPA


A foto 9 mostra um grupos de indígenas sequestrados e apresentados em um zoológico de Paris.


- Exibidos como canibais


- Presos no "Jardim Zoológico de aclimatação”, cujo objetivo era facilitar o estudo do comportamento animal, especialmente da sua vida reprodutiva
.
- Réplicas precárias de suas casas originais, utensílios indígenas, alguns pássaros e pequenos animais e diferentes tipos de restos de esqueletos que ajudaram a reforçar teorias sobre o canibalismo e selvageria desses povos.

- Catalogados como bestas selvagens




Pierre Petit era um fotógrafo  proprietário de um dos estúdios mais exclusivos de Paris. Capturou na foto acima os fueguinos no contexto deste espaço construído de acordo com o imaginário europeu da época. Os aborígenes posam em frente à cabana primitiva de folhas, as mulheres apertam contra os seios nus seus filhos e homens carregam os arcos e lanças que o identificavam como caçadores (FOTO 9).


Despojados de sua dignidade, a única função desses indivíduos era ratificar o inferioridade social que a sociedade branca lhes atribuiu.





Em 1889, o empresário francês Maurice Maître levou Paris a onze indígenas da tribo Selk'nam para exibi-los na grande “Exposição Universal” que, paradoxalmente, comemorou o centenário da Revolução Francesa. 

Os indígenas foram mostrados ao público europeu presos em correntes pesadas tal qual fossem tigres de bengala, e Maítre se fotografou junto à eles frente à um telão de pintado com motivos selvagens enquanto segurava em sua mão um chicote para domar os animais.  (FOTO 10).

- A turnê do empreendedor continuou em Londres, onde os Selk'nam foram exibidos no Aquário de Westminster

- Para destacar a suposta ferocidade desses povos indígenas e sugerir seus hábitos de devoradores de homens, Maître alimentou-os com carne de cavalo cru e peixe, e os manteve em um estado de sujeira e abandono absoluto.

- Quatro dos onze pereceram ao longo da viagem

- Os sobreviventes foram expostos no Musée du Nord e no Musée Castan em Bruxelas, duas feiras ou teatros de atrações, onde os aborígines compartilhavam cartazes com anões, figuras de cera, fantoches, dançarinos exóticos, ilusionistas e outros espetáculos semelhantes.

A animalização dos indígenas foi facilitada ainda mais quando este tinha alguma patologia médica que o enquadrasse no campo de teratologia. 

Os aborígines foram exibidos para o entretenimento do público ocidental, juntamente com os fenômenos de circo, contorcionistas e outras "maravilhas" do estilo.






                    Foto dos membros da Comissão Brasileira de Estudos na Exposição Universal de 1889 em Paris.




ALGUNS CASOS


MÁXIMO E BARTOLA


Máximo e Bartola, por exemplo, eram dois anões microcéfalos que foram exibidos como supostos descendentes da nobreza asteca. Eles realmente nasceram em El Salvador e a mãe deles os vendeu para um comerciante europeu que os levou em turnê. Por volta de 1850, esses irmãos, que também sofriam retardo mental, foram contratados por um famoso empresário americano para fazer parte de seu museu vivo. A deformidade na cabeça, que produziu sua condição, fez com que eles fossem associados às antigas culturas maias que costumavam deformar suas frentes. 


Em 1883, os irmãos foram fotografados por um retratista especializado em fotografia de fenômenos circenses (FOTO 11) 


- Sua falta de desenvolvimento intelectual serviu para reforçar a ideia de que os povos indígenas faziam parte de um estágio anterior da evolução humana.

- Eisenmann retratou-os disfarçados com um vestido grotesco que, certamente,  respondeu ao imaginário ocidental do que uma roupa indígena deveria ser.

- Novamente, a figura branca justaposta aparece na imagem para marcar relações hierárquicas. 




JULIA PASTRANA

Igualmente famoso é o caso de Julia Pastrana, uma mulher índia mexicana que sofria de hipertricose.
Também apelidada na época de "mulher-gorila" ou "a mulher mais feia do mundo" 
(FOTO 12)


Pastrana foi descoberta por um empresário que se tornou seu representante e a introduziu no mundo do entretenimento. Logo ela se tornou famosa e seu gerente, com medo de perder os benefícios que sua exibição trouxe, a propôs em matrimônio.

Julia engravidou e deu à luz uma criança também deformada, mas nenhuma delas sobreviveu ao parto. Infelizmente,sua trágica história não terminou aí, pois o marido inescrupuloso decidiu embalsamar os dois corpos e continuou a exibi-los em toda a Europa em um caixão de vidro. 



Tanto as fotografias de Pastrana vivas quanto as de sua múmia (FOTO 13) faziam parte do negócio lucrativo gerado em torno de sua figura e sua história.


ANOTAÇÕES SOBRE INDÍGENAS BRASILEIROS - EXTRA TEXTO


Encontrei essa publicação com algumas imagens de anotações sobre indígenas brasileiros em 1860, feitas por D. Pedro II em sua visita à província do Espírito Santo, contendo observações sobre os costumes de tribos indígenas e anotações sobre o vocabulário dos índios Puris.



1860. Diário das viagens do imperador d. Pedro II pelo Brasil e pelo mundo, nominado Memória do Mundo – Brasil em 2010. Museu Imperial


Para ver mais fotos do catálogo Arquivos do Brasil, Memórias do Mundo clique aqui




Notas da autora


Nota 1- Uma versão anterior deste artigo foi publicada em Barrancos, Dora et al. (comps.), Criaturas e conhecimento do monstruoso, Buenos Aires, Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, 2008. 

Nota 9 - Para mais informações sobre o rapto dos índios Selk'nam em 1889, ver os textos de Baez Christian e Peter Mason, "Por trás da imagem. O Selk'nam exibidos na Europa em 1889 "e" Em Correntes Pesadas como Tigres de Bengala. Povo indígena da Terra do Fogo, em Londres, em 1889 ".









domingo, 19 de maio de 2019

Entre caras e caretas

Por Julia Donato


As artes manuais, como a caricatura, transmitem algo que transcende a imagem do objeto e dialoga diretamente com o espírito do espectador, diferente da fotografia que é uma representação exata e vazia de um objeto, de acordo com o entendimento de Töpffer (1852). No entanto, a partir de meados do século XIX, fotografia e caricatura começaram a desenvolver uma frutífera relação. A partir disso, a autora Andrea Cuarterolo, em seu texto Entre caras y caretas: caricatura y fotografía en los inicios de la prensa ilustrada argentina, estuda as particularidades desse fenômeno na imprensa gráfica argentina, dando atenção, principalmente, na produção da revista Caras y Caretas, cujo caráter pioneiro influenciou outras publicações ilustradas.

A autora analisou essa interação da fotografia com a caricatura a partir de três perspectivas: a fotografia como uso auxiliar da caricatura; a fotografia como referente intertextual; e a fotomontagem. Ela utilizou uma metodologia comparativa entre as fotografias conservadas no Archivo General de la Nación de Buenos Aires e as caricaturas publicadas nas revistas. Além da análise do aspecto formal da fotografia e caricatura, Andrea levou em conta a temática e ideologia relacionadas.


Caras y Caretas

Foi uma importante revista semanal da Argentina, durante os anos de 1898 e 1941. Se caracterizava pela sátira política, humor e temas da atualidade, acompanhados por elementos como a fotografia e/ou caricatura, principalmente.

Disponível aqui
Em 1982, a revista reapareceu em plena Guerra das Malvinas com o trabalho de jovens desenhistas e humoristas como Miguel Rep, Peni, José Massaroli, Mannken, Canelo, Pollini, Fasulo, Huadi, Petisuí, Enrique Pinti, Geno Díaz, Gila, Bourse Herrera, e escritores como Oscar Bevilacqua, Fermín Chávez, Miguel Grinberg, Marco Denevi, Bernardo Kordon, Roberto Mero, Helvio Botana, Eugenio Mandrini e Jorge Claudio Morhain.

Em 2005, a revista foi relançada como ponto de referência a pesquisas históricas, com os temas de política, arte e cultura. Hoje, o grupo Caras y Caretas contém:

  • Revista Caras y Caretas
  • Libros de Caras y Caretas
  • Centro Cultural Caras y Caretas
  • Cine y Documentos Audiovisuales
  • Premios Democracia

Curiosidades
-Em 2015, a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional da Espanha disponibilizou alguns exemplares da revista. Os exemplares podem ser consultados neste link.
- O site da revista pode ser visto neste link e a página no facebook neste link.
- Em 2018, o pesquisador Felipe Pereira Rissato descobriu a que pode ser a última foto do escritor Machado de Assis, publicada na revista Caras y Caretas em 25 de janeiro de 1908. A matéria completa pode ser lida aqui.

A fotografia como auxiliar

Com a invenção das placas de colódio úmido, as fotografias se tornaram mais populares, uma vez que havia a possibilidade de realizar múltiplas cópias a partir de um mesmo negativo. Então, a fotografia se converteu em auxiliar para pintores e desenhistas que a utilizaram como modelo para as suas composições. Porém, como os jornais e revistas da época só poderiam colocar as fotografias como anexo e como esse processo era caro, as fotografias eram tomadas como modelos e transformadas em desenhos, litografia ou gravuras. Os ilustradores satíricos se aproveitaram disso para dar vida a suas composições.




A fotografia como referente intertextual

Os caricaturistas usavam a imagem fotográfica como referência intertextual, atribuindo-lhe um papel central a decodificação da mensagem humorística ou irônica de suas ilustrações. Muitas vezes, a caricatura fazia referência a fotografias já publicadas em outra edição da revista. Este tipo de caricatura apelou a um receptor visualmente informado, ávido consumidor de imagens, como de fato foi o leitor de Caras y Caretas. Por meio dessa ligação constante de imagens dentro da própria revista, foi proposto um jogo auto-referencial, cujo propósito era, evidentemente, a criação de uma certa cumplicidade com aquele leitor fiel que comprou a publicação semanalmente. Esse treinamento visual foi algo que a revista fomentava, por meio de concursos fotográficos em que um fragmento de uma fotografia publicada era mostrado aos leitores e eles deveriam identificar em que número e com qual epígrafe aparecia.



A fotomontagem: a fotografia como componente

Se a imagem fotográfica era uma ferramenta e, às vezes, uma inspiração para caricaturistas, a caricatura serviu de forma semelhante aos fotógrafos, como evidenciado pelo extenso uso que essas publicações fizeram da fotomontagem. Caras y Caretas popularizou dois tipos de fotomontagens: aquelas que combinavam fotografia e caricatura e aquelas compostas inteiramente por fotografias.




Considerações finais

A inclusão de fotografias, desenhos e ilustrações e a relação dessas imagens entre si levaram a uma mudança comunicativa no leitor no que diz respeito ao objeto impresso. A coexistência de caricaturas com os seus modelos fotográficos trouxeram um jogo entre o realismo da fotografia e a deformação paródica da caricatura. Apesar de defender a objetividade e veracidade das fotografias, a revista fez da manipulação fotográfica e do humor uma de suas características distintivas.


Referências

CUARTEROLO, A. Entre caras y caretas: caricatura y fotografía en los inicios de la prensa ilustrada argentina. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, v. 44, n. 47, p. 155-177, 13 jul. 2017.
TÖPFFER, R. De la plaque Daguerre. À propos des excursions daguerriennes. Paris: Joël Cherbuliez, 1852. p. 233-282.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

La fotografía irónica durante la dictadura militar argentina: un arma contra el poder

Cora Edith Gamarnik

Por Rafael Dias da Silva


A ironia foi historicamente um campo de grandes possibilidades para as artes e cultura em geral. Muitas vezes foi usada como motor de criação artística pelo seu potencial para descobrir paradoxos, marcar contradições e fazer críticas contundentes com uma dose de humor. No cinema, literatura, quadrinhos e teatro, encontramos exemplos semelhantes. No campo da fotografia, é uma estratégia muito procurada e usada, mas ainda pouco estudada. Na Argentina, durante a última ditadura militar (1976-1983), a fotografia irônica foi transformada em uma ferramenta de denúncia, que tornou possível saltar as barreiras da censura, ajudando a demonstrar o consenso, terror e indiferença que o regime militar tinha conseguido instalar.

Neste artigo é analisado um corpus de fotografias selecionados pelos próprios repórteres gráficos para serem expostos nas mostras de jornalismo gráfico que foram realizadas durante a últimos anos da ditadura militar e/ou que foram publicadas em livros que compilaram uma seleção de fotografias de imprensa. 


Enganando a censura

Durante os primeiros anos de ditadura e até a Copa do Mundo disputada na Argentina em 1978, a imagem na imprensa foi caracterizada pela ausência de inovações. As tentativas de revalorizar seu espaço na imprensa, que tinha ocorrido nos anos que antecederam o golpe de Estado desapareceram. Na superfície política nacional, parecia haver um país ordenado, sem conflitos e os fotojornalistas se dedicavam essencialmente a cobrir atos militares, eventos esportivos ou espetáculos. O regime pautou desde seu primeiro dia, as imagens que não podiam circular porque eram contrários ao "espírito nacional". Desta forma, estavam proibidas imagens que mostravam uma visão diferente ao cânone oficial sobre família, juventude, sexualidade, religião, segurança e as próprias forças armadas: mostrar o rosto de uma mãe procurando por seu filho desaparecido estava absolutamente proibido, bem como também publicar a foto de uma pessoa nua.

A ditadura militar na Argentina pretendia homogeneizar a sociedade e realizou, com o apoio de uma imprensa cúmplice, uma construção de mídia que transformou os membros da Junta de Governo, que já tinha entre seus objetivos um plano sistemático de tortura, desaparecimento e morte, em homens probos que salvariam o país do caos.

Contra isso, por interesse profissional, por convicção política e em alguns casos, para ambos ao mesmo tempo, alguns fotógrafos procuraram uma maneira de tirar fotos por fora das orientações da empresa que eles trabalharam. Eles fizeram um trabalho comprometido politicamente e inovador do ponto de vista estético, mesmo sob aquelas circunstâncias. Eles procuraram fotos desafiadoras, transgressivas e irônicas evitando a censura e repressão que prevalecia. A imagem, especialmente pela ambiguidade das leituras e pela capacidade metafórica que caracteriza a linguagem visual, foi então constituída em um dos mecanismos de representação que permitiram fazer referência aos temas ausentes nos textos escritos. Graças a essa prática, muitos fotógrafos no final da ditadura tinham em sua posse uma importante quantidade de imagens de alta qualidade, que nunca haviam sido publicadas ou que previamente haviam sido censuradas.


O poder da ironia

A fotografia irônica, característica do fotojornalismo argentino durante a última ditadura militar, teve uma intenção explícita de ridicularizar aqueles que detinham o poder repressivo da época, o que a transformou em uma ferramenta eficaz de denúncia.

Os fotógrafos buscavam obter imagens que mostravam as consequências econômicas e sociais da ditadura e as primeiras ações das Madres de la Plaza de Mayo e outros parentes na busca pelos detidos/desaparecidos. Eles tiraram fotografias que sugeriam repressão ou que mostravam uma vida cotidiana opressiva e militarizada. Alguns assumiram um risco de tirar fotos de cenas intimidadoras. Eles também procuraram por imagens transgressoras que não responderam ao cânone oficial permitido. Por último, enfrentando a construção da imagem oficial dos militares como homens honrosos, corajosos e acessíveis, os fotógrafos procuraram o gesto, a careta, o passo em falso, o ângulo que os faria parecer ridículos. Eles tiravam fotografias irônicas, com duplo sentido, através das quais zombavam do poder militar. Esse último tipo são aqueles que são analisados no presente trabalho.

Esta fotografia irônica combinou características típicas da cultura popular, onde escárnio e sarcasmo estão presentes frente aos poderosos, com uma tradição anterior na fotografia argentina, especialmente do exemplo e dos ensinamentos de Jorge Aguirre (Figura 1), um fotógrafo que a nova geração de repórteres, surgida nos anos setenta respeitavam, e a quem, de alguma forma, imitavam.

Figura 1 - Desfile militar na Argentina. 1963
Fotografia: Jorge Aguirre
Fonte: Fototeca Argra (Asociación de Reporteros Gráficos Argentinos)

Aguirre conseguiu captar na cidade de Buenos Aires das décadas de sessenta e setenta as imagens nas quais a contradição, o absurdo e o acaso estavam presentes. Com uma visão quase antropológica da cidade, ele conseguiu alcançar uma "distância irônica" que lhe permitiu exercer uma crítica sutil e não "panfletária" da realidade, como ele mesmo afirmava.

Apesar da situação de terror que reinava na época, muitos fotógrafos ultrapassaram os limites estabelecidos pela censura e criaram um contra discurso visual que se opunha ao que podia ser visto nos jornais e revistas. Isto é claramente visto nas imagens de Guillermo Loiácono (Figura 2). Estas fotografias capturaram a experiência de "paparazzi" que muitos repórteres tinham por sua própria prática de trabalho. Desta forma, uma ferramenta típica da imprensa sensacionalista e comercial foi adaptada e transformada em uma ferramenta de denúncia.


Figura 2 - J. Martinez de Hoz, ministro de Economia, 1976-1981
Fotografia: Guillermo Loiácono
Fonte: Archivo Loiácono / Archivo General de la Memoria / Ex-ESMA

O olhar do fotógrafo que procurava essas imagens não era ingênuo, era um olhar político diante do poder e diante dos poderosos. Essas fotografias não foram tiradas por acaso, mas feitas conscientemente esperando o momento certo. Há implícita nelas uma atitude crítica em relação à realidade, uma distância que se diferencia radicalmente da indiferença.

Desde o final de 1981 e ao longo de 1982 e 1983, aconteceram diferentes manifestações públicas contra a ditadura e os fotógrafos cobriram esses fatos. A partir de então, observa-se que as ordens de repressão com relação ao trabalho dos repórteres começam a mudar. Enquanto nos primeiros anos do governo militar os repórteres realizavam seu trabalho publicamente sem grandes dificuldades, a partir de 1981 a perseguição, o espancamento e o roubo de rolos passaram a fazer parte da rotina de seu trabalho diário. Se até então os militares haviam confiado na censura e na autocensura da mídia, isso agora era insuficiente. Havia que impedir não apenas a publicação das imagens, mas também a sua própria produção.


Contra o modelo visual imposto pela ditadura

O corpus de fotografias que foi analisado neste trabalho é composto, em geral, por imagens dos militares que detinham as posições mais importantes do regime, membros da igreja e civis que os acompanharam, com gestos, atitudes e poses que os ridicularizam, mostrando-os em atitudes suspeitas ou desajeitadas (Figura 3). Muitas fotografias procuravam especificamente destacar as características expressivas em seus rostos, os copos de uísque em suas mãos, as atitudes corporais de arrogância, os olhares sombrios (Figura 4). Outras focavam em suas roupas, poses ou gestos que os mostravam como tolos (Figura 5).

Figura 3 - Segunda Junta Militar, Julho 1981
Fotografia: Guillermo Loiácono
 Fonte: Archivo Loiácono / Archivo General de la Memoria / Ex-ESMA

Figura 4 - Segunda Junta Militar, Julho 1981
Fotografia: Horacio Villalobos
Fonte: Arquivo pessoal do fotógrafo 

Figura 5 - Segunda Junta Militar, Julho 1981
Fotografia: Omar Torres
 Fonte: Arquivo pessoal do fotógrafo 

Em algumas dessas fotografias, o ângulo e o enquadramento são fundamentais. Em outros casos, são focados os detalhes do vestuário e também é utilizado o uso metafórico de elementos visuais, como fumaça de cigarro (Figura 6). Em muitas das imagens analisadas, o "humor" expresso não é engraçado, são na verdade recursos visuais, tomando ângulos e superposição de elementos nos quais prevalece um componente crítico e/ou de confronto para desqualificar o fotografado (Figura 7).


 Figura 6 - General Osiris Villegas
Fotografia: Rafael Calviño
Fonte: Arquivo pessoal do fotógrafo

 Figura 7 - Desfile militar na Argentina. 1979
Fotografia: Silvio Zuccheri
Fonte: Arquivo pessoal do fotógrafo

De acordo com a autora, estas imagens mostram como um grupo de repórteres gráficos, através de sarcasmo, zombaria e humor conseguiram instalar na memória coletiva imagens opostas ao discurso oficial naqueles anos. Tiradas nos piores anos da ditadura, são fotos que ajudaram a demonstrar o consenso, o terror, a indiferença e o ceticismo que o regime conseguiu gerar e permitiu a expansão do repertório visual disponível. Esses fotógrafos deixaram para a história visual argentina um legado que nos permite relatar o que aconteceu durante a ditadura com imagens de alguma forma, arrancadas do poder. Eles também mostraram que a ditadura (e os meios de comunicação que apoiaram) não conseguiu fazer desaparecer a criatividade e a inovação na fotografia de imprensa, pelo contrário, o fotojornalismo argentino ressurgiu, com muita força, humor e criatividade.


Referência: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/discursosfotograficos/article/view/12430/12417 e https://www.academia.edu/5158206/La_fotograf%C3%ADa_ir%C3%B3nica_durante_la_dictadura_militar_argentina_un_arma_contra_el_poder