domingo, 12 de maio de 2019

El Fotoperiodismo Y La Guerra de Malvinas:
Una Batalla Simbólica

Cora Gamarnik

“El paso que acabamos de dar se ha decidido sin tener en cuenta cálculo político alguno”.
L. F. Galtieri, presidente de facto, mensaje al país, 3 de abril de 1982

 Por José Henrik Zomer

A fotografia de imprensa durante o conflito das Malvinas - e o uso subseqüente dessas imagens - faz parte das batalhas simbólicas que ocorreram em torno da guerra entre a Argentina e a Grã-Bretanha em 1982.

Para o público em geral, a "guerra" só poderia ganhar visibilidade através da mídia. Estes foram de fato transformados em um espaço de batalha extra, enquanto as fotografias da imprensa faziam parte dela.

Jornais e revistas de massa tornaram-se a espinha dorsal do apoio à "recuperação" das ilhas e a fotografia desempenhou um papel funcional nessa história, mas não como mera ilustração, mas como protagonista.

Fotografias de imprensa são transformadas em ferramentas privilegiadas para a construção de sentido e análise histórica. São também "veículos de memória" através dos quais se constrói uma visão da história.3 Portanto, consideramos que as fotografias da imprensa obtidas e publicadas durante a Guerra das Malvinas em geral, e em 2 de abril de 1982 em particular, foram parte das batalhas simbólicas que ocorreram (e ainda ocorrem hoje) ao reconstruir, lembrar ou comemorar o conflito.


Antes de Malvinas

Em março de 1982 a ditadura militar argentina atravessava um crise de legitimidade frente aos organismos de direitos humanos com publicações de detentos desaparecidos concomitante a uma crise econômica, surgindo a mobilização “Pão, paz e trabalho”, marcha reprimida com veemência pela polícia. Ademais a repressão, fotógrafos capturaram imagens que vivificaram a manifestação e o regime ditatorial, golpeando, arrastando e detendo manifestantes. 
1. Buenos Aires, 30 de marzo de 1982. Fotógrafo: Daniel García.


A partir desses acontecimentos, começou-se a reprimir mais do que antes os fotógrafos de imprensa, pois era necessário impedir a publicação de imagens. A marcha evidenciou um nível de mobilização popular graças aos fotógrafos.

2. Buenos Aires, 30 de marzo de 1982. Fotógrafo: Pablo Lasansky

Três dias depois dessa mobilização, quando centenas de manifestantes ainda estavam sendo detidos, as forças armadas desembarcaram, surpreendentemente para todo o país (embora não para alguns meios de comunicação), nas Ilhas Malvinas.

O desembarque não foi uma resposta à manifestação de 30 de março, como é dito sem nenhum apoio histórico, mas sem dúvida estão conectadas.

A partir de 2 de abril, a Argentina se transformou em um cenário em que a "unidade do povo e do governo" contra o "colonialismo inglês" era representada dia após dia. As fotos publicadas de forma homogênea em toda a imprensa ajudaram a forjar a imagem do apoio monolítico à decisão da Junta Militar.

3.Buenos Aires, 30 de marzo de 1982. El reportero gráfico Román Von Ekstein es perseguido por la policía. Fotógrafo: Lucio Solari.


Malvinas: Desembarque e a tomada da ilha

Operação Rosario, como foi chamado a operação da tomada das ilhas pela ditadura Argentina, baseou-se em duas premissas falsas e contraditórias: a primeira era que antes da ocupação militar das ilhas, a Grã-Bretanha não reagiria militarmente, mas apenas diplomaticamente em fóruns internacionais; e a segunda, que os Estados Unidos não apoiariam a Grã-Bretanha no caso de um eventual conflito.

Do mesmo modo, a decisão de “recuperar” as ilhas se baseavam em questões complexas, a Junta Militar Argentina estar desprestigiada por conta da crise econômica e por denúncias de repressões ilegais frente ao sentimento popular de reclamar a soberania territorial nas ilhas.

4. Buenos Aires, 30 de marzo de 1982. El reportero gráfico Rudy Hanak perseguido por un policía. Fotógrafo: Mario Manusia.

Segundo a opinião de muitos investigadores, as verdadeiras razões para o desembarque eram a estreita relação entre a crise econômica e a política institucional que a Junta Militar estava passando e a idéia de "encontrar um assunto que galvanizasse a opinião pública para se livrar das pressões internos”.

Foram definidas três diretrizes para a execução da captura das ilhas:
- O segredo militar absoluto (a “recuperação” começou a ser desenvolvida no final de 1981);
- Que não haveria baixas inglesas ou kelpers (residentes); e
- Que duraria o mínimo possível.

A idéia original era pegar as Malvinas, deixar cerca de quinhentos homens nas ilhas e continuar as negociações através do canal diplomático. As forças armadas planejaram o desembarque como um grande ato simbólico para depois retirar e negociar.

Para apresentar o feito, em 26 de março daquele ano, a junta desenhou realizar uma foto falsa, levando 3 especialistas, dois cronistas (José María Enzo Camarotti, especialista em temas militares do diário La Razón, e Salvador Fernández, do diário La Nueva Provincia, de Bahía Blanca12) e um fotógrafo, Osvaldo Zurlo, também de La Nueva Provincia, cuja tarefa era usualmente fotografia os exercícios na Marina da Bahía Blanca, totalizando um contingente de 914 homens.

No dia 2 de abril, às 10 horas, a rádio e a televisão argentinas transmitiram o primeiro comunicado da Junta Militar, anunciando que, em uma ação combinada das três forças, o país "recuperou" as Ilhas Malvinas.


O falso Iwo Jima

A única foto de O. Zurlo durante o desembarque de 2 de abril foi de um soldado inglês dobrando sua bandeira. As demais são de militares argentinos em postos de comandos ou fotos dele próprio.

5. Tapa del diario La Nueva Provincia, 3 de de abril de 1982.

O Estado-Maior distribuiu as agências de notícias locais e a mídia em geral, outra foto da captura das Malvinas, onde cinco soldados foram vistos segurando uma bandeira argentina, de autenticidade questionável, visto não se tratar de uma telefoto e não ter nenhum avião voltado da ilha nesse tempo (a foto foi disponibilizada no mesmo dia, poucas horas após o desembaque).

De qualquer forma, vários jornais matutinos publicaram em sua capa no dia seguinte. Na verdade, era uma foto armada no terreno da Escola de Mecânica da Marinha (ESMA), imitação da famosa fotografia de Joe Rosenthal, fotógrafo da agência The Associated Press, em Iwo Jima, Japão, em 1945.
 6.Foto tomada en la ESMA (Escuela de Mecánica de la Armada). Probablemente el 1 de abril 1982.



As fotos de 2 de abril: a rendição inglesa

As fotografias que ficaram mundialmente famosas sobre o desembarque argentino e a rendição inglesa não foram as originalmente planejadas, pelas Forças Armadas Argentinas e sim as obtidas na madrugada de 2 de abril de 1982 pelo fotógrafo Rafael Wollmann, demitido da revista Gente y la Actualidad por contenção de custos (juntamento com outros 3 fotógrafos, Eduardo Bottaro, Tito La Penna e Silvio Zuccheri, que posteriormente fundaram uma agência independente, denominada Imagen Latinoamerica ILA) e estava trabalhando nas Malvinas como correspondente internacional para  editoriais como a francesa Gamma., que aceitou uma proposta de documentar a ilha.

Como Wollmann falava bem inglês, realizaria a reportagem e, graças a conhecidos argentinos, consegui a “tarjeta blanca”, documento para acesso livre às ilhas, emitido e aprovado de forma conjunta entre a embaixada Inglês e Chancelaria Argentina.

Em 23 de março Wollmann viajou às ilhas, estando junto ao governado inglês, registrando paisagens, moradores, flora e fauna. Em 30 de março, Wollmann já havia terminado o trabalho para a Gamma, mas seus colegas da ILA, sabedores da movimentação, pediram a ele que ficasse mais alguns dias "apenas no caso".



As imagens da “humillación”

Wollmann não era o único fotógrafo na ilha em 2 de abril. Estavam os fotógrafos levados pelas Forças Armadas Argentinas, jornalistas ingleses e soldados argentinos que levaram suas câmeras. Sabe-se que registraram-se muitas imagens daquele dia, porém nenhuma com a qualidade, capacidade de síntese e a repercussão que as realizadas por Wollmann.

“El primero de abril estaba cenando cordero en el comedor del Upland Goose Hotel, de Port Stanley. A las ocho se interrumpió la transmisión radial y el gobernador inglés, Rex Hunt, anunció con voz pausada y nerviosa la invasión argentina. Todos en el comedor me miraron a mí. A los pocos argentinos residentes en Malvinas los llevaron a la Municipalidad pero a mí me respetaron mi condición de reportero gráfico y me pude mover con libertad. Tratando de pasar lo más desapercibido posible pude registrar todo lo que sucedió […]. Sin querer, esa noche, de cronista de costumbres pasé a corresponsal de guerra”, relata Rafael Wollmann.

Wollmann ficou hospeda na junto a residência oficial do governador Rex Hunt, onde, ao amanhecer, registrou suas primeiras fotos: após uma troca de palavras e tiros entre os militares ingleses e argentinos, os britânicos se rendem e, ao lado da casa do governador, os soldados começam a entregar suas armas. Wollmann saiu da casa e começou a registrar fotos da situação. Como os argentinos trouxeram fotógrafos, não viram problemas em Wollann realizar os registros e ele pode fotografar sem censura inglese nem militar argentina.

Estavam na casa do governador quando chegou a notícia de que os prisioneiros foram colocados “cuerpo a tierra” para serem revistados. Carlos Büsser (chefe do Corpo de Fuzileiros Navais da Argentina, encarregado de dirigir a operação de pouso nas ilhas) de rapidamente resolver a situação, visto os ingleses já terem se rendido, porém Wollmann já havia realizado os registros.

As fotos que se tornariam o símbolo da humilhação britânica na imprensa internacional foram duas:
i. Andando com os braços erguidos sob o comando de Jacinto Batista; e
ii. Jogados de corpo a corpo enquanto os comandos argentinos estão com suas armas.

Nas duas fotos você pode ver uma composição cuidadosa, na qual o fotógrafo congela o momento certo da ação. Em ambos combinam o fato histórico transcendente e a boa composição visual que resume esse evento. Estas fotografias são, usando a famosa construção teórica realizada por Cartier Bresson em 1952, momentos decisivos. É uma concepção dominante no fotojornalismo, segundo a qual o repórter deve tentar capturar os eventos da forma mais fiel possível e com um nível mínimo de interferência. O papel do fotógrafo é, nesses casos, ser uma "testemunha" que não deve estar diretamente envolvida ou alterar os eventos que estão se desenvolvendo. Seu trabalho é gravar o que vê.

7. Islas Malvinas, 2 de abril de 1982. Fotógrafo: Rafael Wolmann.

8. Islas Malvinas, 2 de abril de 1982. Fotógrafo: Rafael Wolmann

“Mi salvoconducto principal era hablar castellano y que ellos pensaran que, de alguna manera, por algo estaba yo ahí. Que no vine en su barco, pero vine en el de al lado, en un Hércules […] y yo traté y logré pasar desapercibido. No me engolosiné. De la foto de la rendición tengo dos cuadritos, de la foto de los ingleses en el piso tengo dos cuadritos, no tengo veinte. Como todos estaban ocupados, todos tenían una función. Imaginate, ¡se estaban rindiendo los ingleses con las manos en alto! No me iban a preguntar ¿vos quién sos? Si alguien me miraba dos veces, me iba a otro lado”, relata Rafael Wollmann.

A fotografia outorga as imagens nelas retratadas como valor de prova e a imagem dos ingleses rendidos, quando circularam internacionalmente, gerou receio sobre rebelião em colônias.

A maioria das fotos da imprensa é totalmente paradoxal: ancoradas na realidade, "arrancadas do presente", chegam tão bem ao público e permanecem tão tempo na memória coletiva que provocam precisamente interpretações que ultrapassam o evento em si."

A fotografia traz consigo as possibilidades de ficção, simulação e ilusão realista (Vilches, L, 1997, 20). Enquanto o que é visto lá aconteceu, a história não é exatamente como a imagem mostra. Dos ingleses deitados no chão, o fotógrafo obteve duas fotografias, em uma pode-se vier que a maioria deles permanece deitada enquanto na segunda há vários em pé.

São fotos que contradizem o resultado da guerra visto que um pequeno instante entre elas resulta em análises distintas e na derrota Argentina.

9. Islas Malvinas, 2 de abril de 1982



A rota das Fotos

Em 3 de abril a ditadura argentina envia 40 jornalistas e fotógrafos para documentar o desembarque das tropas, deixando-os 4 horas para fotografarem livremente. No regresso, Wollmann sobe e retorna ao continente com eles. Wollmann, por precaução, distribui as fotos entre ele, Eduardo Forte do editorial Atlántida e Silvio Zuccheri, seu companheiro na ILA, mas o desembarque foi tranquilo, sem revistas.

A partir de então, a ILA começa a negociar com a Gamma e com a Atlántida a vendas fotografias. O editorial Atlántida ofereceu dar à agência Gamma os originais, fazer cópias e duplicatas enquanto guardava as cópias. A ILA aceitou recebendo US $ 18.500, o equivalente a dois departamentos da capital federal, mais o custo do avião e do laboratório.

Durante a primeira quinzena de abril, essas fotos foram publicadas nas primeiras páginas de grande parte da imprensa internacional, deixando Inglaterra em imagens de rendição, deitados aos pés dos argentinos ou com as mãos levantadas, por desconhecidos soldados sul-americanos. 


10. Portada Daily Mail. 5 de abril, 1982. Archivo de Rafael Wollmann.
11. Portada The Sun. 5 de abril, 1982. Archivo de Rafael Wollmann.
12. Portada revista L’ Espresso. Año XXVIII. 8 de abril de 1982
13. Portada revista VSD. Nº 240. 8 de abril de 1982.
14. Páginas de Illustré, Nº 15, 14 de abril de 1982.
15. Revista Gente y la actualidad, Número 872, 8 de abril de 1982.


A revista Gente teve a exclusividade para publicar as imagens na Argentina e, em 8 de abril de 1982 publicou seu número 872 com o título: “Vimos rendirse a los ingleses” (Nós vimos a rendição britânica) e subtítulo: “El desembarco. La resistencia. El tiroteo. La victoria. El 2 de abril, día de la recuperación de las Malvinas, fuimos el único medio periodístico que estaba allí. Las fotos exclusivas que sólo verá en Gente” ("O pouso. Resistência. O tiroteio A vitória. No dia 2 de abril, dia da recuperação das Malvinas, fomos o único jornal que estava lá. As fotos exclusivas que você só verá em Gente. "



Perguntas, usos e apropriações

A hipótese levantada pela autora é de que as fotos não foram inócuas, onde, analisando as respostas inglesas materiais e simbólicas contra o desembarque Argentino levou em conta a disponibilização das imagens na mídia internacional, prevalecendo na população Inglesa um sentimento geral de descrença e humilhação.

Em um contexto de declínio do Império Britânico (algo que vinha acontecendo desde a Segunda Guerra Mundial) a publicação destas fotos, que Didi Huberman chama de "eventos visuais”, "provou" e "mostrou" o que tinha acontecido as ilhas e o tratamento que tinham recebido seus soldados, fatores que colaboraram para dar mais argumentos aqueles que propuseram rotas de ação direta, evitando assim qualquer negociação possível com a Argentina.

A afronta das Forças Armadas da Argentina, que as fotos ajudaram a se espalhar e amplificar com o poder internacional, tornou a negociação inviável e os britânicos precisavam de uma vitória impressionante, tinham que provar que ainda eram um poder, mesmo que fosse simbólico.

Hoje já sabemos que, em termos de política mundial, a guerra não fazia sentido, era desnecessária e poderia ter sido evitada. O conflito vencido pelos ingleses deixou como saldo 746 soldados argentinos mortos e mais de mil feridos. Segundo dados oficiais britânicos, 255 soldados britânicos morreram e 777 ficaram feridos, sem contar suicídios decorrentes dos efeitos da guerra.

Para as forças conjuntas que comandaram o pouso argentino, eram fotografias que não tinham em seus planos e que de alguma forma saíram do controle. Não foi o que eles planejaram originalmente. Sua intenção não foi humilhar o britânico, mas fazer um ataque sem derramamento de sangue, um ato simbólico com a hipótese de dar um golpe e, em seguida, sentar e negociar. Mas a ação em si, as imagens e sua disseminação escaparam de seu controle.

Nesse sentido, essas fotos não ajudaram em seus fins e os fatos corroboraram isso.

Porém, militares argentinos ainda hoje testemunham que foi um sonho realizado e motivo de orgulho nacional, e essas fotos os enchem de orgulho.

Para a revista Gente, foi um inquestionável "sucesso jornalístico", posicionando-se como a primeira em vendas durante todo o conflito, tornando um dos principais meios de apoio à “recuperação” das ilhas.

Para a agência Gamma, o acordo com a ILA foi uma surpresa que lhe permitiu obter um sucesso internacional retumbante, em que conseguiu suas fotos nas primeiras páginas dos principais periódicos mundiais.

A autora finaliza o artigo relatando que para o fotógrafo e para a agência ILA, há um antes e depois dessas fotos. As Malvinas representaram um "divisor de águas" em suas carreiras profissionais, principalmente graças ao profissionalismo de Wollmann com fotografias de qualidade e simbolismo gerando impacto nos intervenientes.

Referências:
https://www.academia.edu/28535909/El_fotoperiodismo_y_la_guerra_de_Malvinas_una_batalla_simb%C3%B3lica_Fotografia_e_historia_en_America_Latina_-_Cora_Gamarnik_225-256.pdf

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Políticas de la mirada y la memoria en la captura y el archivo de fotografías


O trabalho de Barrios reflete a fotografia e o arquivo fotográfico a partir da pesquisa de imagens de fins do século XIX e século XX sobre ritos religiosos na província de Corrientes (Nordeste da Argentina) existentes no Arquivo Geral da Nação (AGN).





P

Para a autora, no caso de dispositivos fotográficos e arquivísticos, cada época histórica modula as linhas de visibilidade, de práticas / formas não discursivas de conteúdo que determinam / geram lógicas e performances de visibilidades. Estes estabelecem o que é incorporado no recorte fotográfico do que é memorável e do que é deixado de fora, ou quais memórias se tornam mais visíveis no arquivo e quais são deixadas na sombra. 



Antes de entrar mais detalhadamente na discussão da autora, gostaria de começar esse texto a partir dessa foto de Usha Velasco.







Não por acaso encontrei essa foto durante minha exploração sobre fotógrafos e fotografias de Brasília enquanto refletia sobre minha leitura do texto de Barrios. Pensei em duas coisas: a foto reflete a perspectiva do transeunte (por meio da legenda), no seu cenário de todos os dias (que nem sempre é sombrio, como está na legenda), e a perspectiva de quem vê de fora, nós mesmos, que podemos julgar este um cenário sombrio ou não. A segunda coisa, refere-se ao pequeno recorte que este momento representa para algo que tem infinitude, esta foto representa o frágil segundo de um dia dentre os 365 dias que este transeunte ainda passará por este caminho, ou não. Tanto esta foto como as fotos de Corrientes discutidas por Barrios me parecem ser a soma de várias coisas: daquilo que se deseja representar, a opção do fotógrafo (decisão de captura, esquecimento, exibição, conservação e ocultação deste tipo de imagens), sua percepção do mundo, o contexto histórico, e várias outras possíveis variáveis que tentam se aproximar daquilo que realmente é (mas aquilo que realmente é me parece inalcançável), chegamos apenas à pequenos vestígios daquilo que pode ter sido. Como resultado desta soma retornamos à legenda da foto de Velasco: uma coisa é uma coisa, uma foto é outra coisa. 



Me parece que Barrios se interessa em conhecer as condições históricas que impulsionaram a existência de tais fotografias, e como estas são capazes de ocultar ou evidenciar memórias. 


“Em outras palavras, entendemos que examinar o lugar / local do olhar, aludindo às suas condições históricas e não à representação dos mundos possíveis que ele apresenta, nos permite entender de onde, por que e por que esses mundos são imaginados e apresentados/ reproduzidos em determinado momento e de uma certa maneira.” (pág. 22)




O objeto de investigação de Barrios é o grupo de fotografias de temas relacionados às práticas religiosas correntinas no Arquivo Geral da Nação (AGN). A autora nos diz que hoje essas imagens são abundantes em vários meios e contextos, mas que no final do século XIX e durante o século XX estas eram escassas e até nulamente abordadas contra aquelas visões múltiplas de "progresso" que marcaram a era. A autora observou que os autores mais destacados que forjaram o advento da fotografia na província de Corrientes usaram a técnica para proteger imagens de famílias proeminentes, figuras ilustres da política, do comércio e do arcebispado. Retratos e paisagens urbanas eram os dois grandes gêneros que dominaram o campo visual dos temas memoráveis, mas sempre ligados ao relacionados com a modernização e projeto colonizador promovido pela classe de "educados" e classe média emergente. Os setores políticos da igreja, a burguesia rica viu a fotografia não apenas um instrumento para registro, mas também para legitimar os processos que acompanharam e que eles foram mantidos em uma posição social dominante. 


Isso fez com que as capturas esporádicas relacionadas às classes populares e suas práticas não fossem consideradas dignas de serem mostradas e quase nenhum registro é mantido e, caso sejam mantidas, estão fora dos arquivos oficiais. 



O que foi encontrado no AGN



No arquivo foi encontrado um sistema classificatório que não possui nenhuma categoria especificamente dedicada à preservação de imagens de ritos ou práticas religiosas em geral e Corrientes em particular. No entanto, dentro da superabundância de fotografias abrigadas sob grandes temas e subtópicos, foi possível encontrar cerca de 14 fotografias referentes ao tema. Só permanecem do início do século passado os registros que em sua maioria, foram encomendados pelos sacerdotes da campanha de evangelização ou são imagens que foram definidas seguindo os regimes de visibilidade e ocultação estabelecidas por essa formação histórica que buscava difundir a visão de uma Corriente heróica, culta, clerical, católica e tradicional. 



O que não foi encontrado AGN



Exceto por uma imagem da feira ao redor da Basílica de Itatí, as outras fotografias encontradas eles não registram os ambientes, o espírito brincalhão, ações informais e espontâneas nas celebrações, muito menos traços das atividades herdadas dos habitantes originais que, a partir de então, estavam vinculados a práticas devocionais oficiais e assim sobreviver até hoje (dança, dança e oferta de comidas e cultos pagãos, etc.). Aparentemente, esta quinzena escassa de imagens que difunde o imaginário de uma província católica e clerical é o único que, de uma forma ou de outra, foi abordado e admitia para ser conservada no acervo geral da nação. 

Alguns tópicos importantes






Living Museum

É um tipo de museu que tenta recriar cenários históricos para simular um período de tempo passado, proporcionando aos visitantes uma interpretação experimental da história. É um tipo de museu que tenta recriar toda a extensão de uma cultura, ambiente natural ou período histórico.



Black Country Living Museum – Dudley - Inglaterra



Surgiu pela primeira vez na década de 1830, criando a primeira paisagem industrial em qualquer parte do mundo. A Black Country também possuía importantes peças de hardware e outros produtos distintivos - ferragens estruturais, fabricação de correntes, fechaduras e chaves, fabricação de tubos, fabricação de armadilhas e muitas outras - que trouxeram fama às cidades de Black Country em todo o mundo.

Texto no site do museu:

“Por incrível que pareça, criamos um "lugar" - um lugar real e animado, onde antes não havia nada nem ninguém. Com uma aldeia e moradores carismáticos para conversar. Bondes para andar. Jogos para jogar. Coisas sendo feitas. Histórias para ouvir. Pessoas - seus triunfos para admirar e problemas para ser grato que não são nossos.”



Algumas indagações


Há uma intencionalidade quando se tira uma foto, e depois várias possibilidades de uso. Memória não é algo homogêneo, arquivos, museus e bibliotecas não são capazes de absorver a pluralidade de memórias e percepções que existem em seus territórios (e quando falo de territórios aqui me refiro aos campo de ação de cada instituição). Barrios se debruça em uma discussão que traz à tona a existência de manifestações culturais em Corrientes que não necessariamente estavam presentes nos arquivos por não serem consideradas legítimas para aquela época, isso no final do século XIX e durante o século XX. Esta mesma autora diz que apesar disso atualmente esses outros registros podem ser encontrados em abundância.



Nessa linha de pensamento, vale lembrar que vozes negligenciadas encontram seus próprios caminhos para se legitimar, quando não encontram nos espaços de memória seu próprio reflexo são criados museus, movimentos sociais, centros culturais, e outras diversas maneiras de evidenciar algo ou alguém, numa corrida para o combate do medo do esquecimento. Há, inclusive, aqueles que não se desejam pertencer ou se fazer representar em tais espaços. A questão aqui, a partir dessa colocação de Barrios é: manifestações culturais que não estão representadas nestes espaços de guarda de memória poderiam hoje ser contempladas? É interesse das comunidades ter lugar de guarda nestes locais? Como lidar com a gestão desses registros de memória que por vezes estão em espaços não oficiais?
















A imagem como produtora de conhecimento

Por Julia Donato

Por meio de uma breve revisão de literatura, a autora Alejandra Niedermaier, em seu texto Cuando me asalta el miedo, creo una imagen, afirma que as imagens provocam um imaginário que se comporta como um elemento possibilitador para chegar a representação. Para ela, "Las imágenes constituyen pues procesos cognitivos entendidos éstos como los procesos en los que el ser humano interactúa con su entorno".

Como exemplo de imagem, a fotografia veicula a constituição de um imaginário individual e social. Possibilita a realização de um processo hermenêutico  (análise do autor, texto e leitor) do que é perceptível, tornando visível o instante passado. A imagem resultante é o continente e o conteúdo da memória; em alguns casos é conformadora da memória, isto é, as imagens acompanham nossas recordações; em outros, nossa memória é moldada a partir das imagens. 

A linguagem da fotografia produz um efeito de novo, de algo nunca visto, que só pode ser reconhecido na realidade. Ela é vista no presente, mesmo que representante de um evento do passado, ou seja, a fotografia é o presente do passado. Segundo Alejandra (2016, p. 180),
La toma fotográfica entonces recorta el presente para ingresarlo a su imagen. En este sentido la fotografía trabaja la profundidad del tiempo (en la misma acepción que la profundidad de campo). La fotografía instruye así la mirada al instaurar relaciones inéditas y modificar el conocimiento. 
Fotógrafos e historiadores selecionam quais aspectos do mundo real vão retratar, isto é, se trata de um encontro seletivo com o seu objeto. O valor da imagem retratada deve ser medida pela extensão imaginária. O importante é encontrar a distância focal ideal para que a análise não fique comprometida. A verdadeira análise hermenêutica deve compreender a obra não só em sua particularidade, e sim na relação que ocupa na história e nos vínculos com outras obras. Esse processo de análise considera, portanto, o contexto de criação de uma fotografia/obra/documento.

A autora também comenta sobre a mudança de paradigma do analógico ao digital. As fotografias analógicas mostram e representam o mundo, enquanto as fotografias digitais são projeções do pensamento, mostram e representam o pensamento. A imagem analógica é um signo de existência - por ser uma "huella" da realidade -, a imagem digital é um signo de essência, já que nessa fotografias predominam tramas de sentido, isto é, é facilitadora de práticas narrativas e conceituais.

Platão acreditava que há três elementos necessários para que o conhecimento ocorra: o nome, a definição e a imagem. A autora cita o trabalho de psicanalistas que entendem que quando uma criança captura sua imagem em uma superfície espelhada, podendo configurar seu próprio esquema corporal é o resultado fundamental para o seu desenvolvimento psíquico e para a formação de sua personalidade. Especialistas em psicologia cognitiva afirmam que o raciocínio é inconscientemente atravessado por imagens, sua sobreimpressão, sua exploração e foco.

A imagem, então, é produtora de pensamento e, portanto, converte-se em um potente recurso educativo. A aprendizagem é um processo que está composto por três elementos: o conteúdo curricular, o docente e o aluno. Em paralelo, o ensinamento da técnica de fotografia básica contém os seguinte componentes: sensibilidade do filme, diafragma e velocidade. Além disso, a fotografia como veículo de conhecimento cresce com a comunicação digital, devido à sua localização, ao mesmo tempo, em diferentes culturas, mídias e artefatos.

Em todos os casos, a palavra do professor é aquela que pode fazer o link e o contraponto entre narrativas visuais, tecnológicas e textuais. Assim, a explicação do ensino exige envolvimento, uma implicação que pode, em última análise, proporcionar ao aluno um espaço livre onde você pode se juntar ao conhecimento adquirido e à sua própria criatividade.

Uma pedagogia de imagem deve fomentar diálogos pedagógicos em que os alunos possam ser questionados sobre seus pensamentos e desejos, possibilitando a reflexão e dando-lhes o tempo necessário para integrar sentidos por meio de conceitos multifacetados. 

Alejandra conclui o texto com a convicção de que uma pedagogia da imagem deve conter os aspectos elucidados, assim como os aspectos libertários e éticos. Uma pedagogia da imagem deve patrocinar a criação de narrativas que expliquem os sentidos "dentro e com" o mundo e na qual, ao mesmo tempo, você pode vislumbrar seu eco poético. Ela também faz o seguinte questionamento:
¿Acaso el fotógrafo y el docente no son un ejemplo perfecto de la perspectiva invertida? La escena fuga en el fotógrafo, lo envuelve y entra en su cámara. El conocimiento entra en el docente y en el discente. Al envolverlos, los incluye en la escena. Esa inclusión implica el involucramiento, el compromiso de los –docente, alumno-realizador visual–. 
A partir do texto elucidado e das discussões na disciplina, e tendo como base a aprendizagem hermenêutica, como poderia ser ensinada a fotodocumentação para pessoas das diversas áreas do conhecimento, de acordo com o seu projeto de pesquisa?


Referência
Niedermaier, A. (2016). Cuando me asalta el miedo, creo una imagen, en Cuadernos del Centro de Estudios de Diseño y Comunicación, 56, pp.177-198. Buenos Aires, Argentina. Recuperable en: https://fido.palermo.edu/servicios_dyc/publicacionesdc/vista/detalle_articulo.php?id_libro=545&id_articulo=11484