quinta-feira, 6 de julho de 2017

Coletivos fotográficos: onde está o arquivo físico?

O tema de coletivos fotográficos, onde um grupo de fotógrafos se une para pensar e conduzir suas atividades como um grupo e não mais individualmente, nos permite várias linhas de debates tanto na área da história da Fotografia, conversas sobre linguagem fotográfica, além do foco no fotojornalismo e como não poderia deixar de ser também promover debates com assuntos pertinentes ao universo da arquivologia.

Faremos aqui algumas pontuações considerando três coletivos fotográficos. O coletivo argentino Movimiento Argentino de Fotografxs Independidentes Autovocadxs – M.A.F.I.A, criado em 2012, O Cia da Foto, coletivo nascido em São Paulo em 2003 e o coletivo Ladrões de Alma, nascido em Brasília, em 1988.
O coletivo M.A.f.I.A  surgiu com a proposta de fazer um contraponto na definição de pautas com os jornais impressos e os grandes canais de televisão. 
Duas fortes características do coletivo, além de sua intensa publicação nas redes sociais é a adoção do modelo copyleft para disponibilizar suas fotos na internet, em contraponto com o copyright, com sanções para o caso de cópias de qualquer ordem, com conseqüências legais e financeiras para a infração. Neste caso o coletivo permite o uso gratuito das fotografias postadas, desde que respeite a integridade da obra e o nome de seu autor. Outra característica fundamental para este grupo é que, como diz o nome, o fotógrafo se autoconvida a fazer parte do coletivo, é uma forma aberta de agregar novos participantes ao projeto.

M.A.F.I.A. - autor desconhecido

O grupo Ladrões de Alma nasce com o intuito de dar visibilidade para uma produção autoral, em uma cidade, Brasília a capital do país, onde nos anos até os anos 80, era conhecida no meio fotográfico brasileiro como um centro de excelência do fotojornalismo. É um grupo que investe na pesquisa de linguagem e expressão pessoal, nasce com a produção de uma coleção de postais, propondo novos olhares para um formato tradicional de veiculação fotográfica. Sua formação mudou pouco no tempo, havia um núcleo fixo desde a fundação, mas alguns fotógrafos participaram e depois se afastaram do grupo por motivos diversos. Foram 03 coleções de postais e várias exposições coletivas. O grupo está em atividade até hoje, são quase 30 anos de história.(veja mais em

O Cia da Foto nasce também dentro do universo do fotojornalismo, como o M.A.F.I.A, também com pretensões de trazer uma nova linguagem visual para as coberturas jornalísticas.  Já consolidado, em uma formação fixa, atuou no fotojornalismo, hora atendendo a demandas hora ofertando uma produção com pautas próprias, mas também atuou no mercado de publicidade. Uma decisão do grupo causou certo alvoroço no meio fotográfico, foi a opção de assinar as fotos com o nome do coletivo e não com o nome do fotógrafo. O grupo entendeu que a o tratamento de imagens, a chamada pós produção, que não era feita pelo autor da fotografia, deveria ser considerada também na autoria e então decidiram informar que o nome a ser mencionado na publicação seria o nome do coletivo: Cia da Foto. O grupo com quatro integrantes existiu por dez anos e encerrou a parceria. algumas imagens do coletivo estão disponíveis no Flikr, permite o download das imagens, desde de que citando a autoria(Cia da Foto) e não podendo comercializar a imagem.
foto: Cia da Foto

A questão posta para o coletivo argentino e para o grupo brasiliense, principalmente porque não foram localizadas informações precisas sobre o Cia da Foto, é que não há um arquivo físico onde estejam acondicionadas as fotografias da produção do grupo. O M.A.F.I.A definiu que sua produção estaria disponível em banco de dados na internet, em um site de onde se poderia também fazer download das imagens desejadas.  O site está fora de ar logo a produção não pode ser acessada, Há algumas fotografias também na página do coletivo no Facebook, mas as imagens não tem a informação sobre autoria. O grupo Ladrões de Alma também não tem um arquivo físico onde estejam acondicionados seus mais de 25 anos de produção fotográfica. Desta forma não há onde consultar em documentos físicos, catalogados e conservados, sobre a produção destes coletivos. Há um blog com parte da produção do grupo Ladrões de Alma, um documentário e um livro publicado em 2016 como registro dos 25 anos de fundação do grupo.

foto: Almir Israel

A constituição de coletivos fotográficos, em suas práticas, percebe-se uma grande preocupação com a linguagem, com a intenção na produção das imagens, com a forma de dar visibilidade, com o modelo de citação do nome do autor, mas o arquivo físico da produção fotográfica, com toda a sistematização, catalogação e conservação que merece um conjunto de imagens deste porte e com o significado da proposta do coletivo não é uma preocupação. Não deixam muitos rastros, se desmancham no ar, ou mesmo na rede.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

A importância do armazenamento na produção do fotógrafo digital e a polêmica do Amazon Drive Ilimitado


A tecnologia e a fotografia avançam rapidamente em desenvolvimento. Por isso, é quase impossível acompanhá-las. Uma das preocupações dos fotógrafos da era digital é o armazenamento da sua produção fotográfica. Para tanto, existem opções como: discos externos, HD’s de todos os tipos, memórias flash, espaços em nuvem (armazenamento pela internet) e várias opções.

A palavra armazenamento causa calafrios em qualquer esfera da fotografia, analógica e digital, porque é algo que na prática do mercado brasileiro não é tratada como uma prioridade. A cultura do fotógrafo no Brasil é não se importar com isso. O armazenamento físico, no caso em HD, é alto e sempre defasado enquanto ao que se produz em fotografia. Mesmo que o fotógrafo faça a separação do que é útil e do que não é para ser guardado, a falta de espaço é um problema constante em seu computador. Outra coisa, a média de preços dos discos rígidos deixou de abaixar nos últimos anos, HD externo de 1 tera byte (TB) em média no mercado paralelo fica entre R$ 199,00 a R$ 259,00. Para os mais preocupados, como eu, o armazenamento via internet, ou mais conhecido como “armazenamento em nuvem”, oferecidos pelos mais famosos: Google Drive, Drop Box, OneDrive e o polêmico Amazon Drive; inundaram o mercado com preços e espaços variados de armazenamento.

Lembremos aqui Pierre Levy em sua contribuição sobre o virtual. Para ele, a virtualização impacta as modalidades do estar junto, o nós aqui, de alguma forma, é comprometido. Leia-se no nós as comunidades e empresas virtuais, democracia virtual... Ele até se pergunta em seu livro se o Baudrillard, um filósofo que tinha visão antagônica, bastante negativa, se deveríamos temer o desaparecimento proposto por esse último autor? Ou uma explosão do espaço-tempo, segundo falava Paul Virilio?

Fato é que concordamos com Levy ao relatar que o virtual “é a essência, a ponta fina em curso”, e ele inclui nesse conceito, o processo de transformação de um modo de ser em outro. Do latim virtus, seu sentido vem da força, potência. Como continua o filósofo, “o virtual tende a atualizar-se, sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou formal”. E cita um exemplo interessante: “a árvore está virtualmente presente na semente”. Contrário ao possível, estatístico e constituído, se opõe ao atual.

Enquanto uma organização tradicional concentra em um prédio físico seus empregados, seus arquivos concentram é redistribuído em “coordenadas espaço-temporais” distintas, “fluidifica essas distinções instituídas” e simbologicamente é caracterizada por Levy como um êxodo não presente, se desterritorializando. Essa breve caracterização é relevante para entender de que espaço estamos falando? Ela não ocupa a nossa casa, mas está lá.

Na publicação “Del artefacto mágico al pixel, no artigo sobre o nascimento da fotografia digital na era da conectividade e do acesso”, Francisco José Valentín Ruiz e Mariana López Hurtad, traçam uma breve cronologia sobre a tecnologia e a gestão de imagens. O panorama descrito no artigo compreende 20 anos de avanços tecnológicos. A difusão da comunicação, esquemas de metadados utilizados, todo esse arcabouço, na minha visão pode causar um colapso, coisa que os autores do artigo também defendem. Nessa nuvem, pode acontecer uma tempestade, assim como estava descrito no artigo. Vejamos o primeiro raio.

Recentemente, o gigante do varejo mundial Amazon voltou atrás em seu serviço de armazenamento ilimitado, que na época deixou o mercado preocupado, pois os valores eram abaixo da média por um “serviço ilimitado”. Voltar atrás deixou como prova que o ilimitado, infinito “só existe na esfera espiritual-virtual”, fotógrafos que possuíam 10TB de armazenamento já na nuvem Amazon passariam a pagar o valor de US$600 (dólares) anuais para manter seus arquivos. Nesse caso o barato saiu caro, pois quem quiser desistir desse plano terá apenas 180 dias para retirar seus arquivos, já que a Amazon irá apagar eles de seus servidores dos usuários desistentes. Vários fotógrafos nas redes sociais reclamaram, e já procuram alternativas para esse problema. O plano no Amazon ficou assim: no valor de US$ 12 para armazenar 100GB ao ano ou US$ 60 ao ano para 1TB, caso você precise de mais espaço o TB adicional fica em US$ 60 com um limite de 30TB ao ano.

O conceito de virtual como essa presença em êxodo, essa ocupação diferenciada mescla com um usuário que realmente gera o consumo, assim como a grande quantidade de produção. É importante ressaltar que essa tecnologia é uma importante evolução, e assim o artigo descreve: “La evolución que hemos mostrado nos lleva directamente al modelo de la nube o cloud computing, en el que el almacenamiento de contenidos y su gestión se realiza directamente en la Web sin la utilización de software local. Un modelo de estas características surge por necesidades que se han ido configurando a lo largo de la historia y que vienen derivadas de exigencias de los centros de tratamiento de las imágenes (agencias de noticias, periódicos), pero también de centros de documentación y bibliotecas y, como no por las tendencias impuestas por los usuarios”.

O volume de produção é um problema, pois é necessário espaço para manter esse material, o local apropriado para isso com condições mínimas indicadas pelos fabricantes desses dispositivos. “Pero la cantidad de contenido que estamos generando en digital es enorme. Y hasta tal punto es así que se afirma que en 2002 comenzó «oficialmente» la era digital, ya que en ese año la capacidad de almacenamiento digital superó a la analógica” (Marquina, 2013)





Parte prática, algumas ideias que podem lhe ajudar
Você é importante para sua própria foto. A sua história como profissional é contada com seu material. Direta ou indiretamente a produção faz parte de uma linguagem e nessa linguagem é feita uma leitura, a sua foto possui um papel importante para o mundo. Já dizia Edward Steichen: “A função e missão da fotografia é explicar o homem ao homem e o homem a si mesmo”.

Avaliação constante.
Um exemplo, se guardamos toda produção ao longo de um tempo, o que pode ser realmente comercializado num futuro próximo? Caso o fotógrafo seja fotojornalista, fotógrafo de casamento, eventos corporativos, de qualquer outro campo, o que o motiva guardar essa produção, já que o trabalho entregue já foi executado. Sendo assim nada será reaproveitado depois desse tipo de trabalho. Que utilidade esses arquivos terão se o casamento, a festa infantil, o trabalho corporativo já foi executado, inclusive o jornal já utilizou a foto. De nada serve guardar. Porém, você é quem fornece a importância. Uma das sugestões é o uso em banco de imagem na web (foto no HD não vende). Outra coisa, pesquisadores no futuro podem usar seu material como base de dados, importante fonte de pesquisa para as futuras gerações.

Catalogar e classificar
Catalogar e classificar qualquer produção fotográfica que seja demanda tempo. Alguns fotógrafos consideram essa atividade enfadonha e chata para manter esses arquivos organizados. Muitos dispositivos diferentes, tecnologias diferentes (SSD, USB, SCSI, IDE, SATA, CD, DVD, Zip Drive e disquetes), caixas para guardar, locais específicos para acondicionar, tudo é dispendioso e necessário tempo e gestão para manter organizado. E mais, classificar o que existe em cada um dos dispositivos é cansativo e no final não é rentável.

O que é recomendável?
No caso de alguns HDs é recomendável manter em local seco, longe de umidade e principalmente estática. Nada de deixar seu celular em cima do HD externo, pode ser que na próxima vez que você for usar seus dados já não estarão mais no dispositivo. No site da Seagate, o fabricante afirma que em temperaturas acima de 60º célsius pode danificar o seu HD. Um exemplo é deixar o dispositivo dentro do carro, em pleno meio dia no sol, vai danificar seu HD. A duração máxima de um disco rígido, segundo o fabricante é de 5 anos, por isso faça backup constante de seus arquivos. Os CD’s e DVD’s também ocupam espaço e não são confiáveis pois a durabilidade é bem menor que 5 anos de acordo com as marcas. Esses são os mais conhecidos, outros tipos de mídia são mais sensíveis e ainda demandam outros cuidados. O acondicionamento disso tudo é trabalhoso na vida do fotógrafo e custa muito caro para manter.

Vale a pena pensar no futuro em relação a essa organização toda? Tempo, dinheiro e economia, é comercialmente viável manter essa estrutura? Todos os motivos listados acima são preocupantes, pois é dispendioso para o fotógrafo. Porém, na minha opinião, foto boa é a foto impressa. A fotografia “analógica” sempre terá seu espaço e alguns consideram como “fotografia de verdade”. O resultado de toda essa produção fotográfica, analógica ou digital, para você que segue como fotógrafo profissional deve ser uma das prioridades, pois é um fator determinante em toda produção fotográfica e crescimento como profissional.


Referências

HARAZIM, Dorrit. O instante certo. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

FACULTAD DE CIENCIAS DE LA DOCUMENTACIÓN. Del artefacto mágico al pixel. Estudios de Fotografía. Madrid: Facultad de Ciencias de la Documentación de la UCM, 2014.


LEVY, Pierre. O que o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996.

terça-feira, 27 de junho de 2017

A intenção como condição de inserção da fotografia em um arquivo

Dentro do universo e dos desafios das discussões  sobre a presença da fotografia nos arquivos, entre os debates sobre sua catalogação, seu tratamento no arquivo, a necessidade da inserção do contexto da gênese da imagem, existe uma questão me causa inquietação e dúvidas : a intenção do fotógrafo.

Vários autores tratam o assunto considerando fundamental se conhecer a intenção, o por quê de ter sido feita uma ou outra fotografia, para dar continuidade ao processo de inserção como documento imagético em um arquivo.

Para tudo que tenho lido sobre o tema sempre procuro dialogar com as reflexões sobre minha área de interesse que são os assim chamados acervos ou arquivos, apesar da imprecisão acadêmica do termo, dos fotógrafos autorais e dos fotógrafos amadores.

Dentro de uma instituição, com objetivos e campo de atuação definidos, a produção fotográfica vem lastreada por objetivos, pautas e portanto trazem em sua gêneses a intenção na produção do material fotográfico institucional. Abaixo um exemplo de fotografia cuja intenção é a cobertura fotojornalística das sessões de votação da Câmara Legislativa do Distrito Federal-CLDF.

Deputado Jorge Cauhy(centro) nomeado Presidente Honorário da Câmara Legislativa do Distrito Federal - CLDF, 17 de dezembro de 2004.  Presidente eleito para o biênio 2005/2006, Deputado Fábio Barcelos(em pé à esquerda), aplaude Dep.  Jorge Cauhy. Abaixo sentado, deputado Chico Leite.                      Foto: Rinaldo Morelli, local: Sede da Câmara Legislativa do Distrito Federal.

Entretanto, o modo de produção dos fotógrafos autorais, que trilham o caminho de uma fotografia assinada em seu estilo, divulgar seu nome como um criador original, não estão necessariamente pensando na capacidade de informação.

"No momento da criação da imagem, o fotografo autoral exprime o que lhe interessa o que ele acha que é belo. Ele não está interessado em informa e sim em formar. O fotografo autoral sabe que as pessoas que verão a sua imagem não lhe interessam diretamente, pois ele está preocupado com a  criação. Exatamente o oposto, os fotógrafos funcionais, que fazem a fotografia de informação publicada nos jornais e revistas pensam, antes de tudo, em seus leitores, seus destinatários, pois para fotógrafos de imprensa isso é uma obrigação profissional." 
(fonte: https://focusfoto.com.br/compreenda-a-fotografia-autoral/).

foto: Rinaldo Morelli
                                                                                              
Há no fazer fotográfico um certo devaneio, encantamento pelo que lhe parece belo ou inquietante, um processo de criação que muitas vezes só fará sentido em uma edição futura de um conjunto de imagens com coerência interna quando se juntar estas fotografias realizadas, produzidas em meio a outras produções, de forma despretensiosa, em um conjunto que aí sim terá uma proposta e talvez uma intenção explícita de um discurso construído a posteriori. Aqui sim a intenção se faz presente, de forma mais contundente do que no ato de fotografar. Abaixo tempos o exemplo de uma fotografia que somente tomou sentido após processo de edição de um universo de fotografias que dialogam e constituem uma proposta de conjunto.

foto:Rinaldo Morelli, da série Toda Forma. Nova York, 2004.

Isto fica mais claro e evidente, que não há uma intenção a priori no ato de fotografar, quando tratamos de fotógrafos amadores. Há no fazer de quem anda à deriva pelo mundo, um andarilho caçador de imagens, aprisionando instantes, colecionado anotações imagéticas sobre seu mundo, um auto desafio de conseguir traduzir o que vê para um fotografia. Teremos aqui uma intenção? É apenas a intenção de caçar e colecionar imagens.

foto:Rinaldo Morelli, Fortaleza-CE, 2013.

Como traduzir na descrição do contexto de produção de uma fotografia um instinto que move o fotógrafo? Uma vontade incontrolável e perturbadora que apenas pode ser sanada ao se fotografar aquela cena ou personagem que nos inquieta?

Pesquisa estética, Pérolas do caminho, Desafios do olhar, Quero ver como é que fica, Faço depois penso...etc.

Acima algumas sugestões de intenções. Mas eu mesmo, inquieto que sou, me pergunto sobre o quão imprescindível é a intenção da fotografia/fotógrafo para inserirmos uma fotografia em um arquivo, e/ou se não teria uma definição melhor para traduzir e contextualizar a intenção de um fotógrafo que colhe imagens de maneira despretensiosa e aleatória.


















quinta-feira, 11 de maio de 2017

A fotografia, a manipulação e o documento arquivado

Por Rinaldo Morelli

A fotografia traz incrustada em sua história a ilusão de ser um reflexo do real. Este é um mito que já caiu por terra, mas ainda existem ecos que insistem em enquadrar e enclausurar esta linguagem sem reconhecer sua melhor aptidão que é a de interpretar a realidade.

O fotojornalismo ainda respira estes ares de ilusão de ser a fotografia a testemunha dos fatos e de contar por meio da imagem fotográfica uma verdade, apesar de toda a subjetividade existente na imagem, na intenção do autor e na interpretação do que vemos uma vez que a fotografia permite múltiplas leituras de sua mensagem.

Dentro deste cenário onde o fotojornalismo se insere, a fotografia abaixo (foto 1) foi feita em uma reunião da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Legislativa do Distrito Federal em 24 de março de 2009.
foto 1: Rinaldo Morelli/CLDF
Em uma primeira leitura vemos, são dados conhecidos, os deputados distritais sentados à mesa, os assessores em pé ao fundo, e no canto esquerdo um servidor responsável por secretariar a reunião.

O chefe do Setor de Divulgação solicitou que fossem apagados os assessores que estão na imagem e portanto, estavam presentes à reunião e usando sua prerrogativa de editor também mudou o enquadramento da imagem, fazendo uma edição, uma leitura, uma nova interpretação da imagem.

A fotografia adulterada (foto 2) foi publicada no site da instituição, junto ao texto jornalístico, sendo porém uma imagem que não condiz com o fato fotografado e presenciado pelo fotógrafo. A fotografia publicada junto à matéria jornalística de cobertura sobre aquela reunião fala de um momento que não ocorreu.

Foto 2: Adulteração da foto 1, feita pela Secom/CLDF


A questão que surge diante deste fato é um diálogo entre a história contada pelas fotografias feitas da reunião, o "isto foi" a que se refere Roland Barthes, em seu livro A Câmara Clara, e o resgate da matéria publicada no site quando for arquivada e indexada dentro do arquivo da produção jornalística da Casa.


Caso seja analisado o conjunto de imagens em comparação com o material publicado poderá surgir a dúvida sobre a manipulação da imagem.

Ao analisarmos apenas a matéria jornalística no site a questão da manipulação não será abordada. Teremos um documento, uma matéria jornalística, onde a fotografia não corresponde ao fato ocorrido, não é mais um índice, uma imagem que pertence agora ao universo da ilustração, relativizando as pretensões do jornalismo factual de ser um testemunho da história. 

Leia mais sobre este debate no site PicturaPixel

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Os festivais e a ponte com o meio acadêmico

Por Rodrigo Jorge


Em sua 7ª edição do Festival Foto em Pauta Tiradentes, que aconteceu entre os dias 22 a 26 de março de 2017, o que se ouvia das pessoas nas ruas históricas da cidade de Tiradentes-MG eram intensos debates sobre fotografia e suas diversas manifestações nos campos: das artes plásticas, fotojornalismo, fotografia contemporânea e o mais técnico, equipamentos e câmeras do momento.

A participação do meio acadêmico nesses festivais tem crescido bastante. Tanto o Paraty em Foco (Rio de Janeiro-RJ), FotoPoa (Porto Alegre-RG), Festival de Fotografia do Sertão (Feira de Santana - BA) e o Festival de Tiradentes (MG) pontuam em sua programação palestras e workshops com grandes nomes nacionais e internacionais ligados ao meio acadêmico. Eu não poderia ficar de fora dessa, participei do workshop "Poéticas Contemporâneas da Fotografia", que trouxe Philippe Dubois com o tema: “O tempo elástico da Fotografia Contemporânea - O tempo da imagem, como um contínuo infinito que a gente pode modular” com exemplos diversos, antigos e contemporâneos. Dividido em 3 partes: 1º - movimento imóvel, a fotografia é o instantâneo, 2º - movimento natural - o cinema como ele acontece ele passa, a vida acontece na nossa frente como a gente vê, 3º - elasticidade natural, a passagem contínua e natural da imagem. Gostaria de destacar que no início Dubois pontuou referências bibliográficas muito interessantes para o artigo. Abaixo, coloquei pontos importantes para reflexão. Não pretendi escrever um texto, e sim pontuar algumas ideias necessárias do próprio Dubois.

Download do áudio AQUI

      


Apontamentos e destaques

  • Fotografia e cinema 
  • A fotografia e o tempo elástico  
  • A linguagem da nova mídia 
  • A transformação da imagem na era digital 
  • Autores americanos - filme

Como funciona a imobilidade e o movimento na Fotografia em seu contexto histórico evolutivo?

  • O instantâneo nasce no primeiro quarto do século 19. Ele também é um movimento estético. Esse estético vai se impor na fotografia dessa época. Era obrigatório que a pose demorasse para poder surgir a fotografia. A imobilidade é obrigatória.
  • Dubois revelou pesquisa em que, a partir de recuperação de imagem por parte de historiador, a exposição demorava cerca 8 horas para fazer essa fotografia. 
  • O daguerreótipo mostrou as ruas de Paris muito movimentadas. As técnicas de Daguerre mantém entre 12 e 15 min de exposição.
  • Charles Négre utilizou o colódio úmido (1851), revelava entre um segundo e um minuto. O instante foi uma questão de conquista, uma luta contra uma exposição longa. Era muito importante reduzir o tempo de exposição.

Eadwearde Muybridge.
  • A gente espera que a fotografia realmente pode ser instantânea em torno de 1875. Ele gostaria de identificar duas pessoas importantes porque elas serão muito úteis com a articulação com cinema: Eadwearde Muybridge e Étienne-Jules Marey. Os dois se interessam pelo movimento, pela decomposição do mesmo. Isso foi importante para analisar um corpo que se mexe. 
  • Placas diferentes Muybridge e o Marey uma única placa (Cavalo Branco). Ele usava 24 câmeras diferentes, várias posições diferentes. 
  • O objetivo é demonstrar.A mesma coisa com o vôo dos pássaros, ele decompõe a posição dos animais. A mesma coisas com pessoas.

Marey (Etienne-Jules Marey)
  • Foco no movimento do corpo (cromofotografia sobre uma placa fixa e depois na placa móvel)
  • Obturador rodando no percursos da placa, com uma pequena fenda.
  • Fuzil fotográfico. A existência do cinema, são precursores do cinema.Quando o instantâneo surgiu ele auxiliou o surgimento do cinema com a imagem em movimento. A análise e a síntese são complementares. Instantâneo e a imagem cinematográfica. O instante fixado. Depois, uma foto dos irmãos Lumière (Auguste e Louis Lumière).

O instantâneo e o cinema (expressão da velocidade)

  • As invenções, “o cinema é uma invenção sem futuro”, a fumaça e o trem, sintetizam o movimento. Uma forma de mostrar que ele está indo rápido. Homem com o lençol sendo jogado no ar, o instantâneo que mostra a asa. Ele é como um acidente, como uma sorte. E sim, ele é capaz de captar esses acidentes. Capturar a vida como uma forma improvisada. 
  • Tudo isso no início do século XX. Acompanhar o movimento que oferece sentido e velocidade. Pessoa que joga tênis, outra que corre pela escada, como será que ela vai cair (o salto dela é muito bonito!).


Cartier-Bresson (HENRI)

  • O momento decisivo, o reconhecimento de um fato em uma fração de segundo. A forma dele se impor como a mais forte. O fotojornalismo é a plenitude desse instantâneo. 
  • Robert Capra, ela tem esse lado flow, e ele foi incorporado na fotografia. Caron, (Gilles) Fumaça. Fotografia científica e a fotografia publicitária com altíssima velocidade. A gota de leite, que quando ela cai e faz essa coroa.


A conclusão desse caminho - movimento natural do cinema
  • O objetivo era mostrar a imagem da forma como a gente via a imagem. As pessoas na estação de trem, e no lado direito é a saída de uma fábrica. Quando termina um dia de trabalho. Essa cena foi feita para filmagem, porém estamos vendo a vida como ela é, em movimento. Roupa de bebê, almoço do bebê com a família Lumière. As folhas mexem, isso é o mais impressionante, por que será? Que isso que atraem, isso porque eles nunca tinham vista uma filha se mexendo. A vida como ela é, tem algumas coisas diferentes. No primeiro filme eles estão demolindo uma parede. Não era possível ver na realidade. A gente só pode ver o movimento reverso numa imagem. O balão é filmado na vertical, a ideia deles foi prender no balão uma câmera, uma imagem que não é o ponto de vista humano. 
  • E finalmente, temos a primeira ideia de plano. Um bloco de espaço de tempo indivisível, …formando um conjunto de duas partes de um filme montado. A queda da parede tem 2 planos. Espaço e tempo indivisível, e o plano é instantâneo que dura. O movimento filmado é o plano o que quer dizer que é o cinema. A câmera é o espectador, o plano é a consciência cinematográfico, e o plano é uma imagem que mostra as coisas como a gente as vê. Um balé (Orson Wells (consciência e elasticidade começa está presente nesse plano). Plano contínuo, todos os movimentos vão dar essa elasticidade ao movimento. Noções de plano e continuidade. Uma continuidade do movimento.


Elasticidade temporal da imagem
  • Qual a velocidade desse movimento. A película em movimento. Placas móveis, com pedaços de 90cm, ele animava esses filmes para observar o movimento e não capturar ou fixar, como a fotografia. Experiências com as imagens, a bala com a bolha de sabão (ele dá um tiro com a bolha de sabão). Os primeiros movimentos de “timelapse”,  a posição mimética dos Lumière, e o cinema deve reproduzir o movimento como a gente o vê. Que não é mimética. Ver de outra forma para saber mais. 
  • A experiência da variação de movimento, então todas essas experiências elas produzem imagens inéditas. Didier Morin, 1985, série Carnac. Lugar na França que existem monumentos. Ele segura a câmera, coloca em longa exposição e a respiração é que faz os desenhos. No último segundo ele joga o flash o que torna a imagem branca. Pedras que se mexem. Michael Wesely, série still flowers são exemplos disso. Uma semana de exposição e uma semana de vida daquela flor. 
  • A fotografia é uma continuidade.