terça-feira, 22 de maio de 2018

A captura de hoje só tem valor amanhã?

Por Carlos Selva

A fotografia é a captura de um momento exato e único. Por mais que tenhamos todos os dias um “por do sol” capturado pela, jamais a imagem será a mesma. O cenário muda, o fotografo muda, o ângulo muda, o dia não é o mesmo e muito menos os aspectos climáticos e ambientais se repetem.

O processo de captura de imagem outrora se apresentava a partir da caixa de madeira escura com uma lente objetiva apoiada em um tripé, enquanto o habilidoso fotógrafo, escondido atrás de um pano preto, enquadrava a imagem e, com um clique, tirava a foto. Ali mesmo ela era revelada e entregue ao retratado, que, ansiosamente, esperava para ver seu momento eternizado.

Atualmente e apenas utilizando o aparelho celular qualquer pessoa sem a mínima habilidade e apenas usando algum recurso tecnológico consegue capturar uma imagem com extrema qualidade. Agora vem a pergunta: Onde está o valor?

Inicialmente o valor da fotografia está na essência de quem capturou e no momento único da captura. Entretanto, a captura deste momento único terá um valor significativo quando o amanha chegar e a imagem relatar uma situação ou momento em que se reflete um sentimento ou uma experiência única, o que torna o valor da fotografia imensurável.

Fotografia 1: Por do Sol no Eixo Monumental
Fonte: acervo do autor
Fonte: acervo do autor


Um exemplo de “captura única” pode ser observada ao analisar a fotografia 1, ao lado, cujo registro pertence ao acervo pessoal do autor deste texto. Quando será capturada outra foto igual a esta? Trata-se de uma imagem de um por do sol, produzido por um celular, localizado em frente à praça do Cruzeiro, no Eixo Monumental em Brasília.  






Com o intuito de identificar o valor da fotografia em determinado momento e sua consequência em não ter o valor da captura agregando ao potencial dos recursos disponíveis para o fotografo. Entende-se que a inexistência da fotografia não gera valor algum, mas não se pode afirmar que sua existência obtenha o valor desejado. Sendo este valor mensurável ou não o valor da captura naquele determinado momento possui um resultado de um esforço o que agrega valor.

Observa-se que conhecer outras formas de se mensurar valor a imagem capturada, bem como o potencial valor agregado pelas novas técnicas e metadados inseridos nas fotografias. 

Referências

COTTON, C. A fotografia como arte contemporânea. Tradução Silvia Maria Mourão Netto. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

COUCHOT, Edmond. A tecnologia na arte, da fotografia à realidade virtual. Porto Alegre: UFRGS Editora, 2003.


quarta-feira, 16 de maio de 2018

Arquivística do Sentido # Arquivística do Metro Linear

Por Rodrigo de Freitas Nogueira

A evolução da arquivologia, enquanto disciplina do conhecimento, tem oferecido discussões significativas em relação aos desdobramentos da reconfiguração do documento de arquivo em ambiente informatizado. No que se refere aos documentos fotográficos, o autor David Iglésias Franch (2008, p.15), afirma haver um “fenómeno de la desmaterialización [que] consiste en la ausência de una estructura física de la imagen”.

Sabe-se que os efeitos da desmaterialização na fotografia incorrem no distanciamento dos elementos componentes do documento fotográfico, no qual a informação presente na imagem se distancia do suporte de registro. Essa situação propõe a diferenciação do documento fotográfico digital em relação ao documento tradicional, revelado a partir de um processo químico. Para Camargo (1993), nesse contexto,
“A prática arquivística aproxima-se da prática documentária e aponta para a situação-limite em que os documentos se destacam de sua origem, as informações se separam de seu contexto e os dados ganham autonomia em relação às informações” (1993, p.3).
A autora Ana Maria de Almeida Camargo (1993, p.2) indica ainda que os documentos de arquivo devem ser conservados em decorrência do seu valor, e acrescenta “Que valor, poderíamos perguntar? Antes de qualquer outro, o valor informativo, o valor referencial. Fecham-se assim os elos que unem informação, documento e arquivo numa cadeia, como variáveis de um sistema”. 

Esse microssistema de variáveis que associa informação, documento e arquivo pode representar a complexidade do documento de arquivo digital, no qual ao produtor é perceptível apenas parte desse microssistema. Assim, a manifestação do documento digital possibilita a visualização do conteúdo e das informações que um documento contém, essas que representam as atividades e funções do produtor. Nos bastidores, se é que podemos denominar desse modo, a extensão do microssistema documento de arquivo se completa com um conjunto diverso de registros e metadados que delimitam o contexto e as interações de produção e uso das variáveis envolvidas.

Imagem & Metadado - fonte: https://atom.unb.br/ (adaptado)

Essa arquivística que trata do documento digital e de sua complexidade, por meio da análise de informações, dados e metadados, como variáveis de um microssistema foi denominada por Vital Chomel (1975) apud Camargo (1993, p.3) como “uma arquivística do sentido, que seja ao mesmo tempo decifradora dos dados documentários e questionadora das fontes adormecidas” em oposição a uma “arquivística do metro cúbico ou linear”, que remete ao documento tradicional e sua organização com seus problemas característicos.

Referências


CAMARGO, A. Arquivo, documento e informação: velhos e novos suportes. Revista Photo & Documento, 2, 2016. http://gpaf.info/photoarch/index.php?journal=phd&page=article&op=view&path%5B%5D=26.


IGLÉSIAS FRANCH, David. La fotografía digital en los archivos. Qué es y cómo se trata. Gijón, Ediciones Trea, 2008.

Bolo de Banana, cadê os metadados?


Por Rodrigo de Freitas Nogueira

No texto da autora Antônia Heredia Herrera, A fotografia e os arquivos, original publicado em 1993, a autora aborda uma possibilidade incomum para o tratamento de documentos fotográficos no âmbito das discussões de arquivo. Corresponde a uma percepção ampliada do documento fotográfico, que inclui o tratamento arquivístico como uma possibilidade de organização de fotografias, buscando diferenciar o documento fotográfico do documento fotográfico de arquivo.

Nesse sentido, diante da constatação da diversidade de percepções que resultam da observação do documento fotográfico, cabe evidenciar que

“o arquivista sente nascer a suspeita quanto à veracidade; o jurista nega sua capacidade de prova; para o curador do museu falta à fotografia o status cultural e artístico; o historiador somente concedeu a ela um papel decorativo em suas pesquisas; e os especialistas em diplomática sequer a consideraram” (HEREDIA HERRERA, 1993, p.2).
A natureza ambígua dos documentos fotográficos possibilita o emprego de diferentes técnicas de organização na gestão dos acervos, que, habitualmente, representam a necessidade dos diferentes produtores. A gestão do documento fotográfico nos arquivos compreende o esforço em evidenciar a motivação inicial do registro e de mantê-lo como fonte de prova da atividade que o gerou, que, claramente, não está expressa na imagem.

A atuação dos profissionais de arquivo, perseguindo os referenciais de produção e de contexto de uso do documento fotográfico, considerando as dimensões informativa e artística deles, induz ações para visualizar um modelo de organização que descontextualiza o documento fotográfico da finalidade de produção inicial. Para Heredia Herrera (1993), a dimensão informativa e artística do documento fotográfico
“irá determinar também a relação com os profissionais da documentação, que se manifestará na obrigação de, por um lado, fazer chegar a seus depósitos a produção preconcebida e institucional, por outro, forçar iniciativas para recuperação da produção privada e de coleções particulares” (HEREDIA HERRERA, 1993, p.5.
Fotografia 1 - fonte: acervo do autor

Um exemplo de “iniciativa para recuperação da produção” pode ser observada ao analisar a fotografia 1, ao lado, cujo registro pertence ao acervo pessoal do autor deste post. Porque essa imagem foi produzida? Quando? Trata-se de uma imagem de um bolo de banana, produzido no Café das letras, localizado no Campus Universitário Darcy Ribeiro, na Universidade de Brasília.

Não há registro adicional da data de produção ou outro metadado que possa indicar a motivação do produtor, há ainda a dificuldade de propor uma conexão com uma série ou conjunto que remeta às atividades desenvolvidas por esse produtor. Para diminuir o risco de atribuição de contexto alheio ao original, alguns autores recomendam tratar esse documento fotográfico como parte da coleção do produtor, ou pelo menos, acreditam que essa ação auxiliaria na diminuição do risco de recontextualização no âmbito dos arquivos.

O isolamento do documento fotográfico do seu conjunto originário compromete as referências orgânicas de produção e afasta o registro fotográfico da sua proveniência, inviabilizando a, eventual, confirmação como fonte de prova. Trata-se da impossibilidade de tratá-lo como autêntico, se tornando um novo documento ou uma representação ilustrativa de um novo contexto.

Nesse sentido, conhecer outras formas de organização ou gestão de documentos fotográficos potencializa o aproveitamento dos recursos disponíveis no documento fotográfico e estimula a diminuição da necessidade de forçar iniciativas para promover a recuperação desses documentos.

Referências


HEREDIA HERRERA, A. A fotografia e os arquivos. Revista Photo & Documento, 2, 2016.Disponível<http://gpaf.info/photoarch/index.php?journal=phd&page=article&op=view&path%5B%5D=89&path%5B%5D=68>

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O Papel da imagem no papel: conceitos de patrimônio fotográfico e suas implicações sociais

Por Cleber Mitchell de Lima

É a fotografia a captura fiel da realidade em um suporte físico? Pode uma imagem gravada numa folha de papel, ou em um pedaço de vidro, metal ou madeira representar a emoção de um momento, o registro de um a ação humana ou a documentação de uma atividade laboral ou intelectual?

Platão (2000) em seu livro A República, por meio do que se denomina o mito ou a alegoria da caverna, traz a ideia da captura, ou percepção – normalmente imprecisa – do mundo sensível (pelos sentidos humanos) e do mundo inteligível (pela razão) e suas implicações na realidade pragmática. Segundo esta alegoria, a realidade percebida é influenciada pela experiência pessoal e pela ótica dos sentidos, que pode variar de indivíduo a indivíduo. Isto leva a um questionamento sobre o tema em foco – a fotografia -  e sua validade quanto à captura da realidade (pelo menos a realidade percebida).

Se a alegoria da caverna expõe a imprecisão dos sentidos humanos, o incremento de outras variáveis, como o olhar do fotógrafo, a técnica fotográfica, a tecnologia do processamento fotográfico (incluindo o digital), a câmera, os dispositivos de revelação ou digitalização, bem como o suporte utilizado para a impressão ou exibição da fotografia deve provocar maiores interferências nesta realidade capturada. Aliando-se a isto, a captura de um único momento no tempo e a fixação da imagem deste momento pode alterar a percepção do conjunto de percepções daquele momento e lugar. Como no exemplo da imagem 1 abaixo, onde vemos a tentativa de um trabalhador ressuscitar um colega atingido por descarga elétrica:

Imagem 1: Foto romântica ou registro um salvamento?


Fonte: http://fotos2013.cloud.noticias24.com/11tukk.jpg

Segundo Peirce (1974), a fotografia é um signo da realidade, que por sua vez se divide em três entidades: o signo em si ou a representação, seria o significante, aquilo que é representado na fotografia; o interpretante ou referente, que oferece o significado da foto; e o objeto, que é o conteúdo da foto, ou seja, aquilo que está fora dela, no mundo dito real, representado pela impressão de sua representação em um suporte.

Além desses conceitos apresentados, observa-se o conceito de arquétipo de Jung (2011), no qual tem-se a colocação de que são conjuntos simbólicos gravados no inconsciente e que se manifestam como um psiquismo universal, ou seja, uma consciência coletiva, conceito pelo qual se pode interpretar a importância e relevância da fotografia para a sociedade, como elemento de representação da realidade idealizada.

Segundo Lacerda (2008), a fotografia surgiu em meados do século XIX e tornou-se objeto de coleção familiar e institucional. A história do surgimento da fotografia, porém, não incluiu o uso social como finalidade inicial, mas a fotografia como registro familiar ajudou a popularizar esta tecnologia. Sua gênese se deu em virtude da necessidade acadêmica de registro de informações e de uma “validade incontestável” da imagem como instrumento de documentação de atividades.

Logo em seguida, observou-se sua importância como registro evidencial forense em forense criminal e no registro da natureza, atividades médicas e de suas finalidades instrucionais.

Estes aspectos levaram à necessidade de organização de grupos de fotografias em coleções ou acervos, para posterior utilização, sem, contudo, utilizar-se de uma metodologia padronizada, ficando a cargo de cada organizador a criação de seu método, da forma mais científica até mesmo a de ausência de qualquer método.

A importância da guarda e da organização de acervos fotográficos se dá em virtude da importância social dada às fotografias, desde seu entendimento como arte, captura de momento e objeto da realidade sentida, passando pelo registro histórico ou evidencial de atividades, até a validade documental de uma fotografia.

Este último aspecto interessa, ou pelo menos deveria interessar à ciência arquivística, motivo pelo qual diversos teóricos têm-se debruçado, procurando criar uma metodologia prática e ampla, de caráter técnico-científico, para cumprir os requisitos arquivísticos de ingresso, organização, guarda, preservação e recuperação de documentos fotográficos.

Imagem 2: Foto abstrata, fotografia como arte.

Fonte: https://dncache-mauganscorp.netdna-ssl.com/thumbseg/1067/1067893-bigthumbnail.jpg

Imagem 3: Foto histórica

Fonte: http://1.bp.blogspot.com/_rKhn-QU535Q/Sp0cneSYLZI/AAAAAAAAANo/8IWwfZpa6-o/s320/Bauru-Foto3-blog.jpg

Imagem 4: Interesse social pela fotografia

Fonte: http://revista.escaner.cl/files/u1145/FernandoRosa.jpg

Imagem 5: Foto sendo usada como evidência forense

Fonte: http://www.revistacircuito.com/wp-content/uploads/2014/08/CSI_0136.JPG

Imagem 6: Fotografia como registro científico.

Fonte: http://www.icca.org.br/wp-content/uploads/2013/08/pesquisa_cientifica1.jpg


Patrimônio fotográfico é, em última análise, a ideia geral de organização, guarda, preservação e possível divulgação de acervos fotográficos pessoais, profissionais e institucionais e sua importância social, artística, histórica ou documental dos conjuntos de registros fotográficos de um grupo cultural, seja do tamanho que for.

Faz-se importante, então, estudar mais e melhor sua representação no inconsciente coletivo, para valorar e valorizar o patrimônio fotográfico como uma ferramenta social de registro e compreensão de uma realidade local e temporal. Esta compreensão pode evidenciar a necessidade de intervenção de órgãos privados ou públicos, no sentido de fornecer subsídios financeiros, técnicos e humanos para a organização e preservação física e/ou digital, como forma de mudar a aparente falta de interesse governamental sobre o assunto.

Neste momento das atividades e da sociedade humana, a fotografia ascendeu de uma prática profissional ou um tanto restrita a atividades isoladas para o registro cotidiano da sociedade por meio das redes e mídias sociais. Isto pode trazer uma luz ao registro histórico e social deste momento, pois a história continua sendo escrita, mas representa, por outro lado, uma necessidade cada vez mais urgente de controle dos registros considerados importantes, separando-se “o joio do trigo” em termos de essencialidade de registros e também no que tange à conservação. O meio digital oferece recursos mas também exige o avanço sobre novos desafios em termos de preservação e recuperação de imagens, fotografias e documentos fotográficos neste trabalho contínuo de fotodocumentação.

Bibliografia consultada:
  1. PLATÃO, Anon. A república. In: A República. Martin Claret, 2000.
  2. PEIRCE, Charles Sanders et al. La ciencia de la semiótica. Nueva visión, 1974.
  3. JUNG, Carl Gustav. Arquétipos e o inconsciente coletivo. Editora Vozes Limitada, 2011.
  4. LACERDA, Aline Lopes de. A fotografia nos arquivos: um estudo sobre a produção institucional de documentos fotográficos das atividades da Fundação Rockefeller no Brasil no combate à febre amarela. 2008. Tese de Doutorado. Tese (Doutorado)–Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Gestão de Documentos Fotográficos - importância e necessidade nas instituições públicas

Leitores,
Essa é minha primeira publicação. Antes de tudo irei me apresentar. Meu nome é Ester Kimura, sou arquivista, pós-graduanda (especialização) em Gestão de Documentos e Informações e sou aluna especial do Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação (PPGCINF) da disciplina de Gestão de Documentos Fotográficos, ministrada pelo prof. Dr. André Porto Ancona Lopez.

Gestão de Documentos Fotográficos - importância e necessidade nas instituições públicas

Uma discussão latente é a delimitação de documento arquivístico e se toda fotografia pode ser um documento de arquivo. Além disso, outro ponto importante a ser levantado em consideração é como deve ser aplicado as técnicas arquivísticas para os documentos fotográficos, até que ponto a organização empírica pode surtir efeitos positivos e quando é necessário a intervenção de um profissional da Ciência da Informação, ou até mesmo, de um profissional de sistemas da informação, no caso de documentos eletrônicos.
Para melhor analisar as questões apontadas, apresento um exemplo comum na administração pública: as fotografias produzidas para fins administrativos e de divulgação e que, geralmente, não são tratadas arquivisticamente. Ou seja, nem sempre são identificadas, ordenadas, classificadas, avaliadas e destinadas.
Foto: Ester Kimura

Costumeiramente, as fotografias são produzidas por um fotógrafo na instituição, que não necessariamente é da Assessoria de Comunicação, a partir de uma pauta informal – solicitação de cobertura fotográfica de determinado evento ou situação sem que haja o documento formal de solicitação de acordo ou não com as competências do servidor. Caso as fotos sejam para fins administrativos, estas são encaminhadas à unidade solicitante. Caso sejam para fins de divulgação são encaminhadas ao departamento de comunicação. E quem trata arquivisticamente essas fotos? O fotógrafo e cada uma das unidades interessadas classificam esse documento? No caso de fotografia digital, cada uma fica com um arquivo, gerando originais múltiplos dentro de uma mesma instituição? Como é a guarda das fotografias digitais? Elas ficam na pasta, no perfil de cada um dos funcionários ou estão em uma rede da instituição? As dúvidas e problemas que surgem pela falta de uma gestão dos documentos fotográficos são variadas e podem chegar a perda tanto do documento, como da informação.
Sendo assim, é necessária a gestão desses documentos. Os documentos fotográficos devem estar sempre acompanhados de documentos e informações que justificam seu contexto, além da descrição de conteúdo. Para isso, é importante que a fotografia tenha documentos relacionados à sua criação e utilização, sejam classificados e apresentarem uma estrutura lógica de organização de acordo com os dispositivos necessários que sejam compatíveis com as demais formas de ordenação dos documentos de outro suportes.
Faz-se necessário que o contexto da fotografia em ambiente de arquivo seja sempre revelado pelo produtor, pois pode variar de acordo com a análise imagética posterior ao momento do clique. Madio (2012, p.56) afirma: “O que temos que apreender é que esta ‘realidade’ só pode ser cogitada no momento circunstancial da tomada daquele objeto. A função e objetivos originais para essa ação, e também o olhar do fotógrafo e, posteriormente, as transformações dos processos ótico/químico, além de também o seu processamento documental, tanto imediato como o de guarda, porém deveriam ficar claros e estabelecidos, acompanhando esse documento nas diferentes utilizações que porventura tiver”. Ou seja, apresentar o motivo e/ou a função para qual aquele documento foi gerado, assim como é feito com as informações em outros suportes.
Após essa conscientização de que um documento fotográfico apresenta uma intencionalidade para o qual foi criado, assim como os demais documentos, é necessário manter sua organicidade desde o momento da criação até sua destinação final e, se for o caso, até o arquivo permanente. Para que o documento fotográfico possa chegar a sua destinação final, é importante que junto dos demais documentos que justificam seu contexto, sejam classificados e, em seu tempo, avaliados.
Sugere-se, então, para instituições que apresentem casos similares ao exposto, que seja feito um fluxograma de trabalho, com a formalização dos pedidos de cobertura fotográfica, a guarda desses documentos com os demais relacionados ao evento ou ação, que este dossiê seja classificado e que haja um responsável pela guarda destes documentos de acordo com a estrutura lógica na instituição.


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Coletivos fotográficos: onde está o arquivo físico?

O tema de coletivos fotográficos, onde um grupo de fotógrafos se une para pensar e conduzir suas atividades como um grupo e não mais individualmente, nos permite várias linhas de debates tanto na área da história da Fotografia, conversas sobre linguagem fotográfica, além do foco no fotojornalismo e como não poderia deixar de ser também promover debates com assuntos pertinentes ao universo da arquivologia.

Faremos aqui algumas pontuações considerando três coletivos fotográficos. O coletivo argentino Movimiento Argentino de Fotografxs Independidentes Autovocadxs – M.A.F.I.A, criado em 2012, O Cia da Foto, coletivo nascido em São Paulo em 2003 e o coletivo Ladrões de Alma, nascido em Brasília, em 1988.
O coletivo M.A.f.I.A  surgiu com a proposta de fazer um contraponto na definição de pautas com os jornais impressos e os grandes canais de televisão. 
Duas fortes características do coletivo, além de sua intensa publicação nas redes sociais é a adoção do modelo copyleft para disponibilizar suas fotos na internet, em contraponto com o copyright, com sanções para o caso de cópias de qualquer ordem, com conseqüências legais e financeiras para a infração. Neste caso o coletivo permite o uso gratuito das fotografias postadas, desde que respeite a integridade da obra e o nome de seu autor. Outra característica fundamental para este grupo é que, como diz o nome, o fotógrafo se autoconvida a fazer parte do coletivo, é uma forma aberta de agregar novos participantes ao projeto.

M.A.F.I.A. - autor desconhecido

O grupo Ladrões de Alma nasce com o intuito de dar visibilidade para uma produção autoral, em uma cidade, Brasília a capital do país, onde nos anos até os anos 80, era conhecida no meio fotográfico brasileiro como um centro de excelência do fotojornalismo. É um grupo que investe na pesquisa de linguagem e expressão pessoal, nasce com a produção de uma coleção de postais, propondo novos olhares para um formato tradicional de veiculação fotográfica. Sua formação mudou pouco no tempo, havia um núcleo fixo desde a fundação, mas alguns fotógrafos participaram e depois se afastaram do grupo por motivos diversos. Foram 03 coleções de postais e várias exposições coletivas. O grupo está em atividade até hoje, são quase 30 anos de história.(veja mais em

O Cia da Foto nasce também dentro do universo do fotojornalismo, como o M.A.F.I.A, também com pretensões de trazer uma nova linguagem visual para as coberturas jornalísticas.  Já consolidado, em uma formação fixa, atuou no fotojornalismo, hora atendendo a demandas hora ofertando uma produção com pautas próprias, mas também atuou no mercado de publicidade. Uma decisão do grupo causou certo alvoroço no meio fotográfico, foi a opção de assinar as fotos com o nome do coletivo e não com o nome do fotógrafo. O grupo entendeu que a o tratamento de imagens, a chamada pós produção, que não era feita pelo autor da fotografia, deveria ser considerada também na autoria e então decidiram informar que o nome a ser mencionado na publicação seria o nome do coletivo: Cia da Foto. O grupo com quatro integrantes existiu por dez anos e encerrou a parceria. algumas imagens do coletivo estão disponíveis no Flikr, permite o download das imagens, desde de que citando a autoria(Cia da Foto) e não podendo comercializar a imagem.
foto: Cia da Foto

A questão posta para o coletivo argentino e para o grupo brasiliense, principalmente porque não foram localizadas informações precisas sobre o Cia da Foto, é que não há um arquivo físico onde estejam acondicionadas as fotografias da produção do grupo. O M.A.F.I.A definiu que sua produção estaria disponível em banco de dados na internet, em um site de onde se poderia também fazer download das imagens desejadas.  O site está fora de ar logo a produção não pode ser acessada, Há algumas fotografias também na página do coletivo no Facebook, mas as imagens não tem a informação sobre autoria. O grupo Ladrões de Alma também não tem um arquivo físico onde estejam acondicionados seus mais de 25 anos de produção fotográfica. Desta forma não há onde consultar em documentos físicos, catalogados e conservados, sobre a produção destes coletivos. Há um blog com parte da produção do grupo Ladrões de Alma, um documentário e um livro publicado em 2016 como registro dos 25 anos de fundação do grupo.

foto: Almir Israel

A constituição de coletivos fotográficos, em suas práticas, percebe-se uma grande preocupação com a linguagem, com a intenção na produção das imagens, com a forma de dar visibilidade, com o modelo de citação do nome do autor, mas o arquivo físico da produção fotográfica, com toda a sistematização, catalogação e conservação que merece um conjunto de imagens deste porte e com o significado da proposta do coletivo não é uma preocupação. Não deixam muitos rastros, se desmancham no ar, ou mesmo na rede.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

A importância do armazenamento na produção do fotógrafo digital e a polêmica do Amazon Drive Ilimitado


A tecnologia e a fotografia avançam rapidamente em desenvolvimento. Por isso, é quase impossível acompanhá-las. Uma das preocupações dos fotógrafos da era digital é o armazenamento da sua produção fotográfica. Para tanto, existem opções como: discos externos, HD’s de todos os tipos, memórias flash, espaços em nuvem (armazenamento pela internet) e várias opções.

A palavra armazenamento causa calafrios em qualquer esfera da fotografia, analógica e digital, porque é algo que na prática do mercado brasileiro não é tratada como uma prioridade. A cultura do fotógrafo no Brasil é não se importar com isso. O armazenamento físico, no caso em HD, é alto e sempre defasado enquanto ao que se produz em fotografia. Mesmo que o fotógrafo faça a separação do que é útil e do que não é para ser guardado, a falta de espaço é um problema constante em seu computador. Outra coisa, a média de preços dos discos rígidos deixou de abaixar nos últimos anos, HD externo de 1 tera byte (TB) em média no mercado paralelo fica entre R$ 199,00 a R$ 259,00. Para os mais preocupados, como eu, o armazenamento via internet, ou mais conhecido como “armazenamento em nuvem”, oferecidos pelos mais famosos: Google Drive, Drop Box, OneDrive e o polêmico Amazon Drive; inundaram o mercado com preços e espaços variados de armazenamento.

Lembremos aqui Pierre Levy em sua contribuição sobre o virtual. Para ele, a virtualização impacta as modalidades do estar junto, o nós aqui, de alguma forma, é comprometido. Leia-se no nós as comunidades e empresas virtuais, democracia virtual... Ele até se pergunta em seu livro se o Baudrillard, um filósofo que tinha visão antagônica, bastante negativa, se deveríamos temer o desaparecimento proposto por esse último autor? Ou uma explosão do espaço-tempo, segundo falava Paul Virilio?

Fato é que concordamos com Levy ao relatar que o virtual “é a essência, a ponta fina em curso”, e ele inclui nesse conceito, o processo de transformação de um modo de ser em outro. Do latim virtus, seu sentido vem da força, potência. Como continua o filósofo, “o virtual tende a atualizar-se, sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou formal”. E cita um exemplo interessante: “a árvore está virtualmente presente na semente”. Contrário ao possível, estatístico e constituído, se opõe ao atual.

Enquanto uma organização tradicional concentra em um prédio físico seus empregados, seus arquivos concentram é redistribuído em “coordenadas espaço-temporais” distintas, “fluidifica essas distinções instituídas” e simbologicamente é caracterizada por Levy como um êxodo não presente, se desterritorializando. Essa breve caracterização é relevante para entender de que espaço estamos falando? Ela não ocupa a nossa casa, mas está lá.

Na publicação “Del artefacto mágico al pixel, no artigo sobre o nascimento da fotografia digital na era da conectividade e do acesso”, Francisco José Valentín Ruiz e Mariana López Hurtad, traçam uma breve cronologia sobre a tecnologia e a gestão de imagens. O panorama descrito no artigo compreende 20 anos de avanços tecnológicos. A difusão da comunicação, esquemas de metadados utilizados, todo esse arcabouço, na minha visão pode causar um colapso, coisa que os autores do artigo também defendem. Nessa nuvem, pode acontecer uma tempestade, assim como estava descrito no artigo. Vejamos o primeiro raio.

Recentemente, o gigante do varejo mundial Amazon voltou atrás em seu serviço de armazenamento ilimitado, que na época deixou o mercado preocupado, pois os valores eram abaixo da média por um “serviço ilimitado”. Voltar atrás deixou como prova que o ilimitado, infinito “só existe na esfera espiritual-virtual”, fotógrafos que possuíam 10TB de armazenamento já na nuvem Amazon passariam a pagar o valor de US$600 (dólares) anuais para manter seus arquivos. Nesse caso o barato saiu caro, pois quem quiser desistir desse plano terá apenas 180 dias para retirar seus arquivos, já que a Amazon irá apagar eles de seus servidores dos usuários desistentes. Vários fotógrafos nas redes sociais reclamaram, e já procuram alternativas para esse problema. O plano no Amazon ficou assim: no valor de US$ 12 para armazenar 100GB ao ano ou US$ 60 ao ano para 1TB, caso você precise de mais espaço o TB adicional fica em US$ 60 com um limite de 30TB ao ano.

O conceito de virtual como essa presença em êxodo, essa ocupação diferenciada mescla com um usuário que realmente gera o consumo, assim como a grande quantidade de produção. É importante ressaltar que essa tecnologia é uma importante evolução, e assim o artigo descreve: “La evolución que hemos mostrado nos lleva directamente al modelo de la nube o cloud computing, en el que el almacenamiento de contenidos y su gestión se realiza directamente en la Web sin la utilización de software local. Un modelo de estas características surge por necesidades que se han ido configurando a lo largo de la historia y que vienen derivadas de exigencias de los centros de tratamiento de las imágenes (agencias de noticias, periódicos), pero también de centros de documentación y bibliotecas y, como no por las tendencias impuestas por los usuarios”.

O volume de produção é um problema, pois é necessário espaço para manter esse material, o local apropriado para isso com condições mínimas indicadas pelos fabricantes desses dispositivos. “Pero la cantidad de contenido que estamos generando en digital es enorme. Y hasta tal punto es así que se afirma que en 2002 comenzó «oficialmente» la era digital, ya que en ese año la capacidad de almacenamiento digital superó a la analógica” (Marquina, 2013)





Parte prática, algumas ideias que podem lhe ajudar
Você é importante para sua própria foto. A sua história como profissional é contada com seu material. Direta ou indiretamente a produção faz parte de uma linguagem e nessa linguagem é feita uma leitura, a sua foto possui um papel importante para o mundo. Já dizia Edward Steichen: “A função e missão da fotografia é explicar o homem ao homem e o homem a si mesmo”.

Avaliação constante.
Um exemplo, se guardamos toda produção ao longo de um tempo, o que pode ser realmente comercializado num futuro próximo? Caso o fotógrafo seja fotojornalista, fotógrafo de casamento, eventos corporativos, de qualquer outro campo, o que o motiva guardar essa produção, já que o trabalho entregue já foi executado. Sendo assim nada será reaproveitado depois desse tipo de trabalho. Que utilidade esses arquivos terão se o casamento, a festa infantil, o trabalho corporativo já foi executado, inclusive o jornal já utilizou a foto. De nada serve guardar. Porém, você é quem fornece a importância. Uma das sugestões é o uso em banco de imagem na web (foto no HD não vende). Outra coisa, pesquisadores no futuro podem usar seu material como base de dados, importante fonte de pesquisa para as futuras gerações.

Catalogar e classificar
Catalogar e classificar qualquer produção fotográfica que seja demanda tempo. Alguns fotógrafos consideram essa atividade enfadonha e chata para manter esses arquivos organizados. Muitos dispositivos diferentes, tecnologias diferentes (SSD, USB, SCSI, IDE, SATA, CD, DVD, Zip Drive e disquetes), caixas para guardar, locais específicos para acondicionar, tudo é dispendioso e necessário tempo e gestão para manter organizado. E mais, classificar o que existe em cada um dos dispositivos é cansativo e no final não é rentável.

O que é recomendável?
No caso de alguns HDs é recomendável manter em local seco, longe de umidade e principalmente estática. Nada de deixar seu celular em cima do HD externo, pode ser que na próxima vez que você for usar seus dados já não estarão mais no dispositivo. No site da Seagate, o fabricante afirma que em temperaturas acima de 60º célsius pode danificar o seu HD. Um exemplo é deixar o dispositivo dentro do carro, em pleno meio dia no sol, vai danificar seu HD. A duração máxima de um disco rígido, segundo o fabricante é de 5 anos, por isso faça backup constante de seus arquivos. Os CD’s e DVD’s também ocupam espaço e não são confiáveis pois a durabilidade é bem menor que 5 anos de acordo com as marcas. Esses são os mais conhecidos, outros tipos de mídia são mais sensíveis e ainda demandam outros cuidados. O acondicionamento disso tudo é trabalhoso na vida do fotógrafo e custa muito caro para manter.

Vale a pena pensar no futuro em relação a essa organização toda? Tempo, dinheiro e economia, é comercialmente viável manter essa estrutura? Todos os motivos listados acima são preocupantes, pois é dispendioso para o fotógrafo. Porém, na minha opinião, foto boa é a foto impressa. A fotografia “analógica” sempre terá seu espaço e alguns consideram como “fotografia de verdade”. O resultado de toda essa produção fotográfica, analógica ou digital, para você que segue como fotógrafo profissional deve ser uma das prioridades, pois é um fator determinante em toda produção fotográfica e crescimento como profissional.


Referências

HARAZIM, Dorrit. O instante certo. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

FACULTAD DE CIENCIAS DE LA DOCUMENTACIÓN. Del artefacto mágico al pixel. Estudios de Fotografía. Madrid: Facultad de Ciencias de la Documentación de la UCM, 2014.


LEVY, Pierre. O que o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996.