quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O Papel da imagem no papel: conceitos de patrimônio fotográfico e suas implicações sociais

Por Cleber Mitchell de Lima

É a fotografia a captura fiel da realidade em um suporte físico? Pode uma imagem gravada numa folha de papel, ou em um pedaço de vidro, metal ou madeira representar a emoção de um momento, o registro de um a ação humana ou a documentação de uma atividade laboral ou intelectual?

Platão (2000) em seu livro A República, por meio do que se denomina o mito ou a alegoria da caverna, traz a ideia da captura, ou percepção – normalmente imprecisa – do mundo sensível (pelos sentidos humanos) e do mundo inteligível (pela razão) e suas implicações na realidade pragmática. Segundo esta alegoria, a realidade percebida é influenciada pela experiência pessoal e pela ótica dos sentidos, que pode variar de indivíduo a indivíduo. Isto leva a um questionamento sobre o tema em foco – a fotografia -  e sua validade quanto à captura da realidade (pelo menos a realidade percebida).

Se a alegoria da caverna expõe a imprecisão dos sentidos humanos, o incremento de outras variáveis, como o olhar do fotógrafo, a técnica fotográfica, a tecnologia do processamento fotográfico (incluindo o digital), a câmera, os dispositivos de revelação ou digitalização, bem como o suporte utilizado para a impressão ou exibição da fotografia deve provocar maiores interferências nesta realidade capturada. Aliando-se a isto, a captura de um único momento no tempo e a fixação da imagem deste momento pode alterar a percepção do conjunto de percepções daquele momento e lugar. Como no exemplo da imagem 1 abaixo, onde vemos a tentativa de um trabalhador ressuscitar um colega atingido por descarga elétrica:

Imagem 1: Foto romântica ou registro um salvamento?


Fonte: http://fotos2013.cloud.noticias24.com/11tukk.jpg

Segundo Peirce (1974), a fotografia é um signo da realidade, que por sua vez se divide em três entidades: o signo em si ou a representação, seria o significante, aquilo que é representado na fotografia; o interpretante ou referente, que oferece o significado da foto; e o objeto, que é o conteúdo da foto, ou seja, aquilo que está fora dela, no mundo dito real, representado pela impressão de sua representação em um suporte.

Além desses conceitos apresentados, observa-se o conceito de arquétipo de Jung (2011), no qual tem-se a colocação de que são conjuntos simbólicos gravados no inconsciente e que se manifestam como um psiquismo universal, ou seja, uma consciência coletiva, conceito pelo qual se pode interpretar a importância e relevância da fotografia para a sociedade, como elemento de representação da realidade idealizada.

Segundo Lacerda (2008), a fotografia surgiu em meados do século XIX e tornou-se objeto de coleção familiar e institucional. A história do surgimento da fotografia, porém, não incluiu o uso social como finalidade inicial, mas a fotografia como registro familiar ajudou a popularizar esta tecnologia. Sua gênese se deu em virtude da necessidade acadêmica de registro de informações e de uma “validade incontestável” da imagem como instrumento de documentação de atividades.

Logo em seguida, observou-se sua importância como registro evidencial forense em forense criminal e no registro da natureza, atividades médicas e de suas finalidades instrucionais.

Estes aspectos levaram à necessidade de organização de grupos de fotografias em coleções ou acervos, para posterior utilização, sem, contudo, utilizar-se de uma metodologia padronizada, ficando a cargo de cada organizador a criação de seu método, da forma mais científica até mesmo a de ausência de qualquer método.

A importância da guarda e da organização de acervos fotográficos se dá em virtude da importância social dada às fotografias, desde seu entendimento como arte, captura de momento e objeto da realidade sentida, passando pelo registro histórico ou evidencial de atividades, até a validade documental de uma fotografia.

Este último aspecto interessa, ou pelo menos deveria interessar à ciência arquivística, motivo pelo qual diversos teóricos têm-se debruçado, procurando criar uma metodologia prática e ampla, de caráter técnico-científico, para cumprir os requisitos arquivísticos de ingresso, organização, guarda, preservação e recuperação de documentos fotográficos.

Imagem 2: Foto abstrata, fotografia como arte.

Fonte: https://dncache-mauganscorp.netdna-ssl.com/thumbseg/1067/1067893-bigthumbnail.jpg

Imagem 3: Foto histórica

Fonte: http://1.bp.blogspot.com/_rKhn-QU535Q/Sp0cneSYLZI/AAAAAAAAANo/8IWwfZpa6-o/s320/Bauru-Foto3-blog.jpg

Imagem 4: Interesse social pela fotografia

Fonte: http://revista.escaner.cl/files/u1145/FernandoRosa.jpg

Imagem 5: Foto sendo usada como evidência forense

Fonte: http://www.revistacircuito.com/wp-content/uploads/2014/08/CSI_0136.JPG

Imagem 6: Fotografia como registro científico.

Fonte: http://www.icca.org.br/wp-content/uploads/2013/08/pesquisa_cientifica1.jpg


Patrimônio fotográfico é, em última análise, a ideia geral de organização, guarda, preservação e possível divulgação de acervos fotográficos pessoais, profissionais e institucionais e sua importância social, artística, histórica ou documental dos conjuntos de registros fotográficos de um grupo cultural, seja do tamanho que for.

Faz-se importante, então, estudar mais e melhor sua representação no inconsciente coletivo, para valorar e valorizar o patrimônio fotográfico como uma ferramenta social de registro e compreensão de uma realidade local e temporal. Esta compreensão pode evidenciar a necessidade de intervenção de órgãos privados ou públicos, no sentido de fornecer subsídios financeiros, técnicos e humanos para a organização e preservação física e/ou digital, como forma de mudar a aparente falta de interesse governamental sobre o assunto.

Neste momento das atividades e da sociedade humana, a fotografia ascendeu de uma prática profissional ou um tanto restrita a atividades isoladas para o registro cotidiano da sociedade por meio das redes e mídias sociais. Isto pode trazer uma luz ao registro histórico e social deste momento, pois a história continua sendo escrita, mas representa, por outro lado, uma necessidade cada vez mais urgente de controle dos registros considerados importantes, separando-se “o joio do trigo” em termos de essencialidade de registros e também no que tange à conservação. O meio digital oferece recursos mas também exige o avanço sobre novos desafios em termos de preservação e recuperação de imagens, fotografias e documentos fotográficos neste trabalho contínuo de fotodocumentação.

Bibliografia consultada:
  1. PLATÃO, Anon. A república. In: A República. Martin Claret, 2000.
  2. PEIRCE, Charles Sanders et al. La ciencia de la semiótica. Nueva visión, 1974.
  3. JUNG, Carl Gustav. Arquétipos e o inconsciente coletivo. Editora Vozes Limitada, 2011.
  4. LACERDA, Aline Lopes de. A fotografia nos arquivos: um estudo sobre a produção institucional de documentos fotográficos das atividades da Fundação Rockefeller no Brasil no combate à febre amarela. 2008. Tese de Doutorado. Tese (Doutorado)–Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Gestão de Documentos Fotográficos - importância e necessidade nas instituições públicas

Leitores,
Essa é minha primeira publicação. Antes de tudo irei me apresentar. Meu nome é Ester Kimura, sou arquivista, pós-graduanda (especialização) em Gestão de Documentos e Informações e sou aluna especial do Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação (PPGCINF) da disciplina de Gestão de Documentos Fotográficos, ministrada pelo prof. Dr. André Porto Ancona Lopez.

Gestão de Documentos Fotográficos - importância e necessidade nas instituições públicas

Uma discussão latente é a delimitação de documento arquivístico e se toda fotografia pode ser um documento de arquivo. Além disso, outro ponto importante a ser levantado em consideração é como deve ser aplicado as técnicas arquivísticas para os documentos fotográficos, até que ponto a organização empírica pode surtir efeitos positivos e quando é necessário a intervenção de um profissional da Ciência da Informação, ou até mesmo, de um profissional de sistemas da informação, no caso de documentos eletrônicos.
Para melhor analisar as questões apontadas, apresento um exemplo comum na administração pública: as fotografias produzidas para fins administrativos e de divulgação e que, geralmente, não são tratadas arquivisticamente. Ou seja, nem sempre são identificadas, ordenadas, classificadas, avaliadas e destinadas.
Foto: Ester Kimura

Costumeiramente, as fotografias são produzidas por um fotógrafo na instituição, que não necessariamente é da Assessoria de Comunicação, a partir de uma pauta informal – solicitação de cobertura fotográfica de determinado evento ou situação sem que haja o documento formal de solicitação de acordo ou não com as competências do servidor. Caso as fotos sejam para fins administrativos, estas são encaminhadas à unidade solicitante. Caso sejam para fins de divulgação são encaminhadas ao departamento de comunicação. E quem trata arquivisticamente essas fotos? O fotógrafo e cada uma das unidades interessadas classificam esse documento? No caso de fotografia digital, cada uma fica com um arquivo, gerando originais múltiplos dentro de uma mesma instituição? Como é a guarda das fotografias digitais? Elas ficam na pasta, no perfil de cada um dos funcionários ou estão em uma rede da instituição? As dúvidas e problemas que surgem pela falta de uma gestão dos documentos fotográficos são variadas e podem chegar a perda tanto do documento, como da informação.
Sendo assim, é necessária a gestão desses documentos. Os documentos fotográficos devem estar sempre acompanhados de documentos e informações que justificam seu contexto, além da descrição de conteúdo. Para isso, é importante que a fotografia tenha documentos relacionados à sua criação e utilização, sejam classificados e apresentarem uma estrutura lógica de organização de acordo com os dispositivos necessários que sejam compatíveis com as demais formas de ordenação dos documentos de outro suportes.
Faz-se necessário que o contexto da fotografia em ambiente de arquivo seja sempre revelado pelo produtor, pois pode variar de acordo com a análise imagética posterior ao momento do clique. Madio (2012, p.56) afirma: “O que temos que apreender é que esta ‘realidade’ só pode ser cogitada no momento circunstancial da tomada daquele objeto. A função e objetivos originais para essa ação, e também o olhar do fotógrafo e, posteriormente, as transformações dos processos ótico/químico, além de também o seu processamento documental, tanto imediato como o de guarda, porém deveriam ficar claros e estabelecidos, acompanhando esse documento nas diferentes utilizações que porventura tiver”. Ou seja, apresentar o motivo e/ou a função para qual aquele documento foi gerado, assim como é feito com as informações em outros suportes.
Após essa conscientização de que um documento fotográfico apresenta uma intencionalidade para o qual foi criado, assim como os demais documentos, é necessário manter sua organicidade desde o momento da criação até sua destinação final e, se for o caso, até o arquivo permanente. Para que o documento fotográfico possa chegar a sua destinação final, é importante que junto dos demais documentos que justificam seu contexto, sejam classificados e, em seu tempo, avaliados.
Sugere-se, então, para instituições que apresentem casos similares ao exposto, que seja feito um fluxograma de trabalho, com a formalização dos pedidos de cobertura fotográfica, a guarda desses documentos com os demais relacionados ao evento ou ação, que este dossiê seja classificado e que haja um responsável pela guarda destes documentos de acordo com a estrutura lógica na instituição.


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Coletivos fotográficos: onde está o arquivo físico?

O tema de coletivos fotográficos, onde um grupo de fotógrafos se une para pensar e conduzir suas atividades como um grupo e não mais individualmente, nos permite várias linhas de debates tanto na área da história da Fotografia, conversas sobre linguagem fotográfica, além do foco no fotojornalismo e como não poderia deixar de ser também promover debates com assuntos pertinentes ao universo da arquivologia.

Faremos aqui algumas pontuações considerando três coletivos fotográficos. O coletivo argentino Movimiento Argentino de Fotografxs Independidentes Autovocadxs – M.A.F.I.A, criado em 2012, O Cia da Foto, coletivo nascido em São Paulo em 2003 e o coletivo Ladrões de Alma, nascido em Brasília, em 1988.
O coletivo M.A.f.I.A  surgiu com a proposta de fazer um contraponto na definição de pautas com os jornais impressos e os grandes canais de televisão. 
Duas fortes características do coletivo, além de sua intensa publicação nas redes sociais é a adoção do modelo copyleft para disponibilizar suas fotos na internet, em contraponto com o copyright, com sanções para o caso de cópias de qualquer ordem, com conseqüências legais e financeiras para a infração. Neste caso o coletivo permite o uso gratuito das fotografias postadas, desde que respeite a integridade da obra e o nome de seu autor. Outra característica fundamental para este grupo é que, como diz o nome, o fotógrafo se autoconvida a fazer parte do coletivo, é uma forma aberta de agregar novos participantes ao projeto.

M.A.F.I.A. - autor desconhecido

O grupo Ladrões de Alma nasce com o intuito de dar visibilidade para uma produção autoral, em uma cidade, Brasília a capital do país, onde nos anos até os anos 80, era conhecida no meio fotográfico brasileiro como um centro de excelência do fotojornalismo. É um grupo que investe na pesquisa de linguagem e expressão pessoal, nasce com a produção de uma coleção de postais, propondo novos olhares para um formato tradicional de veiculação fotográfica. Sua formação mudou pouco no tempo, havia um núcleo fixo desde a fundação, mas alguns fotógrafos participaram e depois se afastaram do grupo por motivos diversos. Foram 03 coleções de postais e várias exposições coletivas. O grupo está em atividade até hoje, são quase 30 anos de história.(veja mais em

O Cia da Foto nasce também dentro do universo do fotojornalismo, como o M.A.F.I.A, também com pretensões de trazer uma nova linguagem visual para as coberturas jornalísticas.  Já consolidado, em uma formação fixa, atuou no fotojornalismo, hora atendendo a demandas hora ofertando uma produção com pautas próprias, mas também atuou no mercado de publicidade. Uma decisão do grupo causou certo alvoroço no meio fotográfico, foi a opção de assinar as fotos com o nome do coletivo e não com o nome do fotógrafo. O grupo entendeu que a o tratamento de imagens, a chamada pós produção, que não era feita pelo autor da fotografia, deveria ser considerada também na autoria e então decidiram informar que o nome a ser mencionado na publicação seria o nome do coletivo: Cia da Foto. O grupo com quatro integrantes existiu por dez anos e encerrou a parceria. algumas imagens do coletivo estão disponíveis no Flikr, permite o download das imagens, desde de que citando a autoria(Cia da Foto) e não podendo comercializar a imagem.
foto: Cia da Foto

A questão posta para o coletivo argentino e para o grupo brasiliense, principalmente porque não foram localizadas informações precisas sobre o Cia da Foto, é que não há um arquivo físico onde estejam acondicionadas as fotografias da produção do grupo. O M.A.F.I.A definiu que sua produção estaria disponível em banco de dados na internet, em um site de onde se poderia também fazer download das imagens desejadas.  O site está fora de ar logo a produção não pode ser acessada, Há algumas fotografias também na página do coletivo no Facebook, mas as imagens não tem a informação sobre autoria. O grupo Ladrões de Alma também não tem um arquivo físico onde estejam acondicionados seus mais de 25 anos de produção fotográfica. Desta forma não há onde consultar em documentos físicos, catalogados e conservados, sobre a produção destes coletivos. Há um blog com parte da produção do grupo Ladrões de Alma, um documentário e um livro publicado em 2016 como registro dos 25 anos de fundação do grupo.

foto: Almir Israel

A constituição de coletivos fotográficos, em suas práticas, percebe-se uma grande preocupação com a linguagem, com a intenção na produção das imagens, com a forma de dar visibilidade, com o modelo de citação do nome do autor, mas o arquivo físico da produção fotográfica, com toda a sistematização, catalogação e conservação que merece um conjunto de imagens deste porte e com o significado da proposta do coletivo não é uma preocupação. Não deixam muitos rastros, se desmancham no ar, ou mesmo na rede.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

A importância do armazenamento na produção do fotógrafo digital e a polêmica do Amazon Drive Ilimitado


A tecnologia e a fotografia avançam rapidamente em desenvolvimento. Por isso, é quase impossível acompanhá-las. Uma das preocupações dos fotógrafos da era digital é o armazenamento da sua produção fotográfica. Para tanto, existem opções como: discos externos, HD’s de todos os tipos, memórias flash, espaços em nuvem (armazenamento pela internet) e várias opções.

A palavra armazenamento causa calafrios em qualquer esfera da fotografia, analógica e digital, porque é algo que na prática do mercado brasileiro não é tratada como uma prioridade. A cultura do fotógrafo no Brasil é não se importar com isso. O armazenamento físico, no caso em HD, é alto e sempre defasado enquanto ao que se produz em fotografia. Mesmo que o fotógrafo faça a separação do que é útil e do que não é para ser guardado, a falta de espaço é um problema constante em seu computador. Outra coisa, a média de preços dos discos rígidos deixou de abaixar nos últimos anos, HD externo de 1 tera byte (TB) em média no mercado paralelo fica entre R$ 199,00 a R$ 259,00. Para os mais preocupados, como eu, o armazenamento via internet, ou mais conhecido como “armazenamento em nuvem”, oferecidos pelos mais famosos: Google Drive, Drop Box, OneDrive e o polêmico Amazon Drive; inundaram o mercado com preços e espaços variados de armazenamento.

Lembremos aqui Pierre Levy em sua contribuição sobre o virtual. Para ele, a virtualização impacta as modalidades do estar junto, o nós aqui, de alguma forma, é comprometido. Leia-se no nós as comunidades e empresas virtuais, democracia virtual... Ele até se pergunta em seu livro se o Baudrillard, um filósofo que tinha visão antagônica, bastante negativa, se deveríamos temer o desaparecimento proposto por esse último autor? Ou uma explosão do espaço-tempo, segundo falava Paul Virilio?

Fato é que concordamos com Levy ao relatar que o virtual “é a essência, a ponta fina em curso”, e ele inclui nesse conceito, o processo de transformação de um modo de ser em outro. Do latim virtus, seu sentido vem da força, potência. Como continua o filósofo, “o virtual tende a atualizar-se, sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou formal”. E cita um exemplo interessante: “a árvore está virtualmente presente na semente”. Contrário ao possível, estatístico e constituído, se opõe ao atual.

Enquanto uma organização tradicional concentra em um prédio físico seus empregados, seus arquivos concentram é redistribuído em “coordenadas espaço-temporais” distintas, “fluidifica essas distinções instituídas” e simbologicamente é caracterizada por Levy como um êxodo não presente, se desterritorializando. Essa breve caracterização é relevante para entender de que espaço estamos falando? Ela não ocupa a nossa casa, mas está lá.

Na publicação “Del artefacto mágico al pixel, no artigo sobre o nascimento da fotografia digital na era da conectividade e do acesso”, Francisco José Valentín Ruiz e Mariana López Hurtad, traçam uma breve cronologia sobre a tecnologia e a gestão de imagens. O panorama descrito no artigo compreende 20 anos de avanços tecnológicos. A difusão da comunicação, esquemas de metadados utilizados, todo esse arcabouço, na minha visão pode causar um colapso, coisa que os autores do artigo também defendem. Nessa nuvem, pode acontecer uma tempestade, assim como estava descrito no artigo. Vejamos o primeiro raio.

Recentemente, o gigante do varejo mundial Amazon voltou atrás em seu serviço de armazenamento ilimitado, que na época deixou o mercado preocupado, pois os valores eram abaixo da média por um “serviço ilimitado”. Voltar atrás deixou como prova que o ilimitado, infinito “só existe na esfera espiritual-virtual”, fotógrafos que possuíam 10TB de armazenamento já na nuvem Amazon passariam a pagar o valor de US$600 (dólares) anuais para manter seus arquivos. Nesse caso o barato saiu caro, pois quem quiser desistir desse plano terá apenas 180 dias para retirar seus arquivos, já que a Amazon irá apagar eles de seus servidores dos usuários desistentes. Vários fotógrafos nas redes sociais reclamaram, e já procuram alternativas para esse problema. O plano no Amazon ficou assim: no valor de US$ 12 para armazenar 100GB ao ano ou US$ 60 ao ano para 1TB, caso você precise de mais espaço o TB adicional fica em US$ 60 com um limite de 30TB ao ano.

O conceito de virtual como essa presença em êxodo, essa ocupação diferenciada mescla com um usuário que realmente gera o consumo, assim como a grande quantidade de produção. É importante ressaltar que essa tecnologia é uma importante evolução, e assim o artigo descreve: “La evolución que hemos mostrado nos lleva directamente al modelo de la nube o cloud computing, en el que el almacenamiento de contenidos y su gestión se realiza directamente en la Web sin la utilización de software local. Un modelo de estas características surge por necesidades que se han ido configurando a lo largo de la historia y que vienen derivadas de exigencias de los centros de tratamiento de las imágenes (agencias de noticias, periódicos), pero también de centros de documentación y bibliotecas y, como no por las tendencias impuestas por los usuarios”.

O volume de produção é um problema, pois é necessário espaço para manter esse material, o local apropriado para isso com condições mínimas indicadas pelos fabricantes desses dispositivos. “Pero la cantidad de contenido que estamos generando en digital es enorme. Y hasta tal punto es así que se afirma que en 2002 comenzó «oficialmente» la era digital, ya que en ese año la capacidad de almacenamiento digital superó a la analógica” (Marquina, 2013)





Parte prática, algumas ideias que podem lhe ajudar
Você é importante para sua própria foto. A sua história como profissional é contada com seu material. Direta ou indiretamente a produção faz parte de uma linguagem e nessa linguagem é feita uma leitura, a sua foto possui um papel importante para o mundo. Já dizia Edward Steichen: “A função e missão da fotografia é explicar o homem ao homem e o homem a si mesmo”.

Avaliação constante.
Um exemplo, se guardamos toda produção ao longo de um tempo, o que pode ser realmente comercializado num futuro próximo? Caso o fotógrafo seja fotojornalista, fotógrafo de casamento, eventos corporativos, de qualquer outro campo, o que o motiva guardar essa produção, já que o trabalho entregue já foi executado. Sendo assim nada será reaproveitado depois desse tipo de trabalho. Que utilidade esses arquivos terão se o casamento, a festa infantil, o trabalho corporativo já foi executado, inclusive o jornal já utilizou a foto. De nada serve guardar. Porém, você é quem fornece a importância. Uma das sugestões é o uso em banco de imagem na web (foto no HD não vende). Outra coisa, pesquisadores no futuro podem usar seu material como base de dados, importante fonte de pesquisa para as futuras gerações.

Catalogar e classificar
Catalogar e classificar qualquer produção fotográfica que seja demanda tempo. Alguns fotógrafos consideram essa atividade enfadonha e chata para manter esses arquivos organizados. Muitos dispositivos diferentes, tecnologias diferentes (SSD, USB, SCSI, IDE, SATA, CD, DVD, Zip Drive e disquetes), caixas para guardar, locais específicos para acondicionar, tudo é dispendioso e necessário tempo e gestão para manter organizado. E mais, classificar o que existe em cada um dos dispositivos é cansativo e no final não é rentável.

O que é recomendável?
No caso de alguns HDs é recomendável manter em local seco, longe de umidade e principalmente estática. Nada de deixar seu celular em cima do HD externo, pode ser que na próxima vez que você for usar seus dados já não estarão mais no dispositivo. No site da Seagate, o fabricante afirma que em temperaturas acima de 60º célsius pode danificar o seu HD. Um exemplo é deixar o dispositivo dentro do carro, em pleno meio dia no sol, vai danificar seu HD. A duração máxima de um disco rígido, segundo o fabricante é de 5 anos, por isso faça backup constante de seus arquivos. Os CD’s e DVD’s também ocupam espaço e não são confiáveis pois a durabilidade é bem menor que 5 anos de acordo com as marcas. Esses são os mais conhecidos, outros tipos de mídia são mais sensíveis e ainda demandam outros cuidados. O acondicionamento disso tudo é trabalhoso na vida do fotógrafo e custa muito caro para manter.

Vale a pena pensar no futuro em relação a essa organização toda? Tempo, dinheiro e economia, é comercialmente viável manter essa estrutura? Todos os motivos listados acima são preocupantes, pois é dispendioso para o fotógrafo. Porém, na minha opinião, foto boa é a foto impressa. A fotografia “analógica” sempre terá seu espaço e alguns consideram como “fotografia de verdade”. O resultado de toda essa produção fotográfica, analógica ou digital, para você que segue como fotógrafo profissional deve ser uma das prioridades, pois é um fator determinante em toda produção fotográfica e crescimento como profissional.


Referências

HARAZIM, Dorrit. O instante certo. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

FACULTAD DE CIENCIAS DE LA DOCUMENTACIÓN. Del artefacto mágico al pixel. Estudios de Fotografía. Madrid: Facultad de Ciencias de la Documentación de la UCM, 2014.


LEVY, Pierre. O que o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996.

terça-feira, 27 de junho de 2017

A intenção como condição de inserção da fotografia em um arquivo

Dentro do universo e dos desafios das discussões  sobre a presença da fotografia nos arquivos, entre os debates sobre sua catalogação, seu tratamento no arquivo, a necessidade da inserção do contexto da gênese da imagem, existe uma questão me causa inquietação e dúvidas : a intenção do fotógrafo.

Vários autores tratam o assunto considerando fundamental se conhecer a intenção, o por quê de ter sido feita uma ou outra fotografia, para dar continuidade ao processo de inserção como documento imagético em um arquivo.

Para tudo que tenho lido sobre o tema sempre procuro dialogar com as reflexões sobre minha área de interesse que são os assim chamados acervos ou arquivos, apesar da imprecisão acadêmica do termo, dos fotógrafos autorais e dos fotógrafos amadores.

Dentro de uma instituição, com objetivos e campo de atuação definidos, a produção fotográfica vem lastreada por objetivos, pautas e portanto trazem em sua gêneses a intenção na produção do material fotográfico institucional. Abaixo um exemplo de fotografia cuja intenção é a cobertura fotojornalística das sessões de votação da Câmara Legislativa do Distrito Federal-CLDF.

Deputado Jorge Cauhy(centro) nomeado Presidente Honorário da Câmara Legislativa do Distrito Federal - CLDF, 17 de dezembro de 2004.  Presidente eleito para o biênio 2005/2006, Deputado Fábio Barcelos(em pé à esquerda), aplaude Dep.  Jorge Cauhy. Abaixo sentado, deputado Chico Leite.                      Foto: Rinaldo Morelli, local: Sede da Câmara Legislativa do Distrito Federal.

Entretanto, o modo de produção dos fotógrafos autorais, que trilham o caminho de uma fotografia assinada em seu estilo, divulgar seu nome como um criador original, não estão necessariamente pensando na capacidade de informação.

"No momento da criação da imagem, o fotografo autoral exprime o que lhe interessa o que ele acha que é belo. Ele não está interessado em informa e sim em formar. O fotografo autoral sabe que as pessoas que verão a sua imagem não lhe interessam diretamente, pois ele está preocupado com a  criação. Exatamente o oposto, os fotógrafos funcionais, que fazem a fotografia de informação publicada nos jornais e revistas pensam, antes de tudo, em seus leitores, seus destinatários, pois para fotógrafos de imprensa isso é uma obrigação profissional." 
(fonte: https://focusfoto.com.br/compreenda-a-fotografia-autoral/).

foto: Rinaldo Morelli
                                                                                              
Há no fazer fotográfico um certo devaneio, encantamento pelo que lhe parece belo ou inquietante, um processo de criação que muitas vezes só fará sentido em uma edição futura de um conjunto de imagens com coerência interna quando se juntar estas fotografias realizadas, produzidas em meio a outras produções, de forma despretensiosa, em um conjunto que aí sim terá uma proposta e talvez uma intenção explícita de um discurso construído a posteriori. Aqui sim a intenção se faz presente, de forma mais contundente do que no ato de fotografar. Abaixo tempos o exemplo de uma fotografia que somente tomou sentido após processo de edição de um universo de fotografias que dialogam e constituem uma proposta de conjunto.

foto:Rinaldo Morelli, da série Toda Forma. Nova York, 2004.

Isto fica mais claro e evidente, que não há uma intenção a priori no ato de fotografar, quando tratamos de fotógrafos amadores. Há no fazer de quem anda à deriva pelo mundo, um andarilho caçador de imagens, aprisionando instantes, colecionado anotações imagéticas sobre seu mundo, um auto desafio de conseguir traduzir o que vê para um fotografia. Teremos aqui uma intenção? É apenas a intenção de caçar e colecionar imagens.

foto:Rinaldo Morelli, Fortaleza-CE, 2013.

Como traduzir na descrição do contexto de produção de uma fotografia um instinto que move o fotógrafo? Uma vontade incontrolável e perturbadora que apenas pode ser sanada ao se fotografar aquela cena ou personagem que nos inquieta?

Pesquisa estética, Pérolas do caminho, Desafios do olhar, Quero ver como é que fica, Faço depois penso...etc.

Acima algumas sugestões de intenções. Mas eu mesmo, inquieto que sou, me pergunto sobre o quão imprescindível é a intenção da fotografia/fotógrafo para inserirmos uma fotografia em um arquivo, e/ou se não teria uma definição melhor para traduzir e contextualizar a intenção de um fotógrafo que colhe imagens de maneira despretensiosa e aleatória.


















quinta-feira, 11 de maio de 2017

A fotografia, a manipulação e o documento arquivado

Por Rinaldo Morelli

A fotografia traz incrustada em sua história a ilusão de ser um reflexo do real. Este é um mito que já caiu por terra, mas ainda existem ecos que insistem em enquadrar e enclausurar esta linguagem sem reconhecer sua melhor aptidão que é a de interpretar a realidade.

O fotojornalismo ainda respira estes ares de ilusão de ser a fotografia a testemunha dos fatos e de contar por meio da imagem fotográfica uma verdade, apesar de toda a subjetividade existente na imagem, na intenção do autor e na interpretação do que vemos uma vez que a fotografia permite múltiplas leituras de sua mensagem.

Dentro deste cenário onde o fotojornalismo se insere, a fotografia abaixo (foto 1) foi feita em uma reunião da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Legislativa do Distrito Federal em 24 de março de 2009.
foto 1: Rinaldo Morelli/CLDF
Em uma primeira leitura vemos, são dados conhecidos, os deputados distritais sentados à mesa, os assessores em pé ao fundo, e no canto esquerdo um servidor responsável por secretariar a reunião.

O chefe do Setor de Divulgação solicitou que fossem apagados os assessores que estão na imagem e portanto, estavam presentes à reunião e usando sua prerrogativa de editor também mudou o enquadramento da imagem, fazendo uma edição, uma leitura, uma nova interpretação da imagem.

A fotografia adulterada (foto 2) foi publicada no site da instituição, junto ao texto jornalístico, sendo porém uma imagem que não condiz com o fato fotografado e presenciado pelo fotógrafo. A fotografia publicada junto à matéria jornalística de cobertura sobre aquela reunião fala de um momento que não ocorreu.

Foto 2: Adulteração da foto 1, feita pela Secom/CLDF


A questão que surge diante deste fato é um diálogo entre a história contada pelas fotografias feitas da reunião, o "isto foi" a que se refere Roland Barthes, em seu livro A Câmara Clara, e o resgate da matéria publicada no site quando for arquivada e indexada dentro do arquivo da produção jornalística da Casa.


Caso seja analisado o conjunto de imagens em comparação com o material publicado poderá surgir a dúvida sobre a manipulação da imagem.

Ao analisarmos apenas a matéria jornalística no site a questão da manipulação não será abordada. Teremos um documento, uma matéria jornalística, onde a fotografia não corresponde ao fato ocorrido, não é mais um índice, uma imagem que pertence agora ao universo da ilustração, relativizando as pretensões do jornalismo factual de ser um testemunho da história. 

Leia mais sobre este debate no site PicturaPixel